sexta-feira, maio 16, 2008
UM MICO E UMA ROUBADA
Os dois posts já passaram por aqui e em comentários em certas feitas. Estão de volta, relembrados, revividos, por que eu gosto muito de livros bons e o Marcus do "A GRANDE ABÓBORA" está presenteando com dois muito bons no seu aniversário de 5 anos.

O parabéns é para você, mas o presente é meu, hein?!?

Quem quiser escrever, posta seu Mico e linka pra lá que ainda dá tempo!


UM MICO

Pensei, pensei, e desencavei esse mico da época que tentei fazer faculdade de Relações Públicas aqui em Santos. Parei no segundo ano por descobrir que o curso não existia. Não sei como está hoje, mas na minha época eu não aprendia praticamente nada. O único professor com quem aprendi algo foi o Iberê Sirna. Acabei indo para São Paulo e me formei publicitária pela Cásper Líbero mas, antes disso, ainda aqui em Santos e na FACOS, o curso de jornalismo recebia para uma palestra o repórter Caco Barcellos. Eu era super fã dele, e me ofereci para auxiliar no evento, nem que fosse para ficar repondo copo descartável.

No dia do evento, uma das meninas-chave da coordenação não apareceu, e me deixaram no lugar dela. Minha função? Apresentar as instalações da faculdade para ele, fazer um resumo sobre o curso, blá, blá, blá.

Eu, ansiosa por demais. Imaginem, O Caco Barcellos, admirava o cara. Como nos desencontramos (o primeiro erro), comecei a apresentar as instalações de onde estávamos, do último andar, descendo para o primeiro. Lá ia eu, tremendo feito vara verde, o gajo educadíssimo e disfarçando não perceber meu interno mas quase transbordante transtorno, e aquela turba atrás de nós, como se todos fossem visitantes. Eu abria uma portinha, explicação básica, olhadela, fecha portinha, vamos para a próxima. Nesse meio tempo, ele me disse alguma coisa sobre um trabalho desenvolvido na época, eu toda saltitante, me sentindo a companheira de trabalho e praticamente trocando de curso naquele instante, vou abrindo sem aviso a porta do laboratório de rádio, conversando já intimamente com meu mais novo amigo de infância.

Daí olho um momento para todo mundo, incluindo umas duas professororas minhas, que congelam. Não tinha dado tempo dele entrar ainda para sua conferida rápida, o que foi a salvação, pois havia aberto a porta do bannheiro feminino. A companheira de equipe, trocando de roupa lá dentro, entregue pelo reflexo no encontro dos espelhos.

Presença de espírito instantânea, continuamos o passeio com uma multidão muda, praticamente um serviço religioso e profundo.

Nunca mais me chamaram para atuar em nenhum evento. Assim, sem motivo.



UMA ROUBADA

Um grande amigo, daqueles que ralam e muito em cada trabalho - e que hoje merecidamente coordena os programas brasileiros no Festival Internacional de Curtas de SP, me convocava sempre como diretora de produção para seus curtas.

Produzi três sob a direção dele, um com outro amigo, e ainda morro de saudades de nossas épocas de total falta de grana, mas de criatividade à mil.

Como diretora de produção do "Último dia", tive que correr atrás de muitas autorizações com a polícia, para podermos filmar nas ruas com tranqüilidade. Algumas cenas que seriam rodadas aconteceriam perto de meu antigo apartamento, na Vila Mariana, então entreguei a documentação do projeto para o Posto da Polícia da Sena Madureira, que me receberam muito educadamente. Autorizações entregues, agora correria para encontrar objetos de cena. O Sr. diretor William, sempre ele, me solicita um item bastante fácil de se encontrar por aí:

uma porta.

A porta que seria usada nas cenas do esconderijo da personagem da Laís.
Pois bem, lá vou eu atrás de uma porta que atendesse as solicitações. E não encontrava nada. Só que, perto de onde eu morava, na Sena Madureira mesmo, existia uma casa onde outrora funcionava uma escola de inglês, que estava vazia mas cheia de trecos na entrada. Passei na frente por acaso, e fiquei de voltar mais tarde.

Taí uma coisa que não deveria ter feito: voltar lá.

Pois é. Mas eu fiz. Deixei as coisas que trazia no caminho em casa, e voltei lá. Aqui sublinho: deixei TUDO em casa, inclusive documentos (crianças, nunca façam uma coisa dessas!), só levando minha chave. Estava lá eu, com minha camiseta da Mostra Internacional de Cinema, subindo as escadarias da casa que antes parecia tão inocente, agora me desperta receios. Olho para os lados, e só vejo pedaços de madeira, papelão e caixas para todos os lados. E nada de porta. Resolvo entrar mais na casa para observar seu interior, quando de repente começo a ouvir barulhos. E então pessoas, uns três ou quatro homens, surgem do nada (do nada não, de debaixo daquela montoeira de papelão e madeira!), e me perguntam o que eu estou fazendo invadindo e mexendo na casa deles.

Gelei.
Começo a recuar, tentando explicar que estava ali a trabalho, que não procurava por ninguém, e pensando "como está longe essa porta de entrada. Seja esperta. Corra enquanto pode". Do lado de fora, escuto carros freando bruscamente, próximo ao local. Meu instinto não sei porque pensou : "é a polícia, ficarei bem". Policiais então entram na casa, nervosos, recolhendo as pessoas que estavam ali escondidas, invadindo aquela casa. Começaram a arrastar TODAS as pessoas, incluindo essa que lhes escreve. Comecei a tentar explicar que não era mendiga (olha o nível da situação!), que estava ali a trabalho, mas a policial que me segurava não queria saber de conversa.

Continuei repetindo minha história, quando, por sorte minha, uns dos policiais presente no local havia me recebido no dia em que deixei as autorizações para as filmagens no posto de trabalho dele. Ele acabou me reconhecendo e confirmando que eu deveria estar ali só a trabalho realmente. Agradeci, corri de volta para casa agradecendo por não ter acontecido nada pior. A porta? Bem, acabei não arranjando porta nenhuma. Por coincidência, ao irmos filmar na casa da Carol, encontramos uma dentro de uma caçamba. Se não fosse por isso, lá estaria eu novamente atrás de uma outra porta. E torcendo para não entrar em outra fria, como aquela de filmar no estacionamento dos mafiosos lá na Treze de Maio.

Mais isso já é outra história...

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postado por Aleksandra Pereira às 10:50 AM | 8 comentário(s)
terça-feira, abril 22, 2008
EM BOAS MÃOS
Armando, Gonçalves e Peixoto sempre foram conhecidos como o "Trio Sensação". Amigos desde garotos, cresceram juntos no bairro da Aparecida, estudaram na mesma turma, namoraram amigas. Juntos bateram na porta do Seu Agenor, dono da Fábrica de Sorvetes Gelícia, e por anos trabalharam lado a lado.

Mesmo com relacionamento mais estável do que muitos casamentos, brigavam muito, pois eram de temperamentos diversos: Armando era mulherengo, falastrão e convencido. Gonçalves era o medroso e mentiroso. Peixoto, Peixoto era um cara comum, feliz com a vida que levava, com os amigos. Eles eram sua grande conquista na vida, e se orgulhava ao lembrar que foram suas bolinhas de gude que os uniram. E Peixoto era mesmo a cola que unia os três amigos.

E assim, juntos, viveram por muitos anos. Atravessaram décadas, planos, presidentes, copas e Olimpíadas. Casaram, tiveram filhos, netos. Perderam dentes, cabelos, esposas, filhos. Mas sempre se tiveram por perto, para tudo.

Desde a aposentadoria se encontravam na Praça Quinze a jogar 21 e conversa fora, esticar o olho para as ancas das babás. Todos os dias, às 10, religiosamente, até o dia em que o Peixoto não apareceu.

Armando e Gonçalves o aguardaram na pensão em que viviam por horas, e nada. Guardam a soleira da porta, aflitos. Percorrem hospitais e delegacias, quando Peixoto reaparece, tranqüilo, enigmático, sorriso de orelha a orelha como se nada tivesse acontecido.

Os amigos desconfiam; Peixoto, cada dia fica mais alheio.

Escapando, às vezes Peixoto sumia por poucas horas, quase todos os dias. Antes de terminar o mês, ficava sem sua aposentadoria, logo ele, que sempre fora tão econômico.

Armando e Gonçalves estudaram as possibilidades: vício, jogo ou mulher. Drogas eles descartaram. Jogar ele jogava sim, até apostava – de forma comedida, é claro. Tinha que ser mulher.

E era.
Rose, loirona Wellaton, queimada de sol, pernas roliças e firmes, unhas bem feitas. Uniforme branco justinho, sensual, atendente em casa de massagem - para a mãe, era enfermeira.

Derrubou o queixo de Armando e Gonçalves. Por inveja, por despeito. Não, não. Por preocupação. Uma mulher daquelas só poderia querer depenar o pobre Peixoto, logo ele, que emprestava para quem precisasse, sempre solícito, sempre amigo. Pobre Peixoto.

Tentaram lhe abrir os olhos. “Deixem disso”, ele respondia com um muxoxo que escondia o orgulho. Rose era dele, o que nem os amigos nem ninguém entenderia. Dele, José Álvaro Peixoto, 69 anos, aposentado de uma fábrica de sorvetes. Dele.

Que os amigos não se preocupassem, que Rose era moça direita. Todo dia ela só lhe pedia um dinheiro para uma coisa boba, para uma fezinha no bicho (Sonhava sempre com uma enorme borboleta, tinha certeza que daria). Prometeu que, assim que ganhasse o prêmio, largaria a vida na casa de massagem para viver com Peixoto, como mulher dele, senhora de seu castelo, casa amarela, dois cachorros, um pequeno salão de cabeleireiro e um altar para São Jorge.

Mais de 60 anos de amizade, que sobrevivia à quase tudo. Peixoto desejara novamente provar do fruto proibido, e a serpente se achegou entre eles em forma de mulher. E que mulher!

Não acreditando, Armando e Gonçalves resolveram pagar para ver, e pagaram mesmo: cercaram Rose de mimos, presentes, pequenos agrados em dinheiro. Rose a tudo recebe, timidamente agradecida, mas não conquistada. Reafirma sue amor por Peixoto, e a real vontade de viver com ele.

Eles insistem. Peixoto vai se mostrando cada vez mais calado e desconfiado em casa, com os amigos. Acreditam que tudo vai bem com o plano. Intimamente, tanto Armando quanto Gonçalves se sentiam merecedores de uma noite ao lado daquela Pâmela Anderson do subúrbio. Logo, logo, Peixoto cairia em si e descobriria a besteira que iria fazer.


Rose um dia, do nada, desapareceu. Largara o emprego na casa de massagem, não retocava mais as raízes no salão da Rua Setúbal, não descia mais a Duarte Amaral requebrando e torcendo pescoços. Sumira. Gonçalves reparara no resultado do bicho: borboleta.

Armando e Gonçalves esperam Peixoto comentar o fato, chorar e espernear nos ombros amigos, esbravejando que mulheres são todas iguais, que só mudam de endereço e não deixam o nome da rua. Nada. Com o tempo, Peixoto voltara à normalidade, aos jogos de 21 na praça, ao flerte com as babás – principalmente as loiras de farmácia.

Só a amizade que já não parecia bem a mesma. Peixoto já não ria mais das piadas sem graça de Armando, e nem repetia o prato de macarrão insosso que Gonçalves preparava. Olhava às vezes para o nada, pensativo, distante, à procura. Estava já perdido para eles.

Até o dia em que Peixoto se perdeu de vez. Armando e Gonçalves nunca mais tiveram notícias dele. Imaginavam o amigo entregue à própria sorte, vagando pelas ruas, chorando seu amor malogrado. E ninguém nem nenhuma babá mexeria tanto com eles quanto a bela massagista. Uma pena.

Rose foi vista em uma casinha amarela em uma cidadezinha lá longe, cuidada por dois cachorros que ficavam presos enquanto seu salão funcionava. No meio fio, brincavam suas duas crianças, Dorival, o filho de Peixoto, e o próprio, exibindo sua coleção de bolinhas de gude. Estava no Paraíso.

Se sentia mais moço, capaz de qualquer coisa ou tudo de novo. Dali duas semanas Peixoto faria algo ainda inédito em sua vida: uma tatuagem. Borboleta. A primeira.

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postado por Aleksandra Pereira às 11:27 AM | 1 comentário(s)
quinta-feira, março 20, 2008
CORAÇÃO NO ASFALTO
Quando Sabina se mudou para o prédio colado ao seu, Danilo jogava conversa fora com sua turminha no portão, atrapalhando o acesso à garagem. Sabina falou primeiro com Danilo, que não lembra mais o que respondeu. Só lembra que nunca tinha visto menina mais bonita.

Os amigos com o tempo viraram só colegas, pois Danilo vivia com e para Sabina. Assim como a amizade, crescera entre eles o amor, quando passaram a atender por Bina e Dan Dan.


***
Oito anos, desde o dia em que se conheceram e ficaram amigos, namoraram e a aproximaram suas famílias.

Novo colégio, idades dos hormônios em fúria, vontade de experimentar outros ares, olhares. Danilo reluta em assumir suas novas necessidades; Sabina, por ser mulher ou mais atenta, percebera as mudanças.

Discussões, desentendimentos. Danilo pediu um tempo para respirar e aproveitar o afastamento, curtir novos sabores, odores. Saiu com outras garotas, mas nada sério. Não custou a perceber a falta que Sabina lhe fazia. Os passeios não tinham mais a mesma graça, e os beijos ofertados não tinham o mesmo gosto dos roubados de Sabina.

Arrependido, Danilo pensa em como surpreender a amada e tê-la de volta. Preparou uma mochila com tudo o que precisava, aguardou escurecer, e saiu.

Dia seguinte, e os moradores do prédio 51 da Rua Américo Vespúcio e todos os passantes no quarteirão – que andassem olhando o chão para evitar buracos -, leram a seguinte inscrição:


Da janela de seu apartamento, Danilo apreciava sua criação. Não dormira, esperançoso, coração na garganta pulando apressadinho.

Sete e meia da manhã, e a família em torno da mesa do café, alheios ao que se passa no íntimo do jovem benjamim. Campainha. O coração de Danilo chegou primeiro à porta, batendo descompassado. Sabina!

E era mesmo, radiante em seus dezesseis anos, com o uniforme do colégio, lábio superior mordido, olhos atentos, leve e fresca, cheirando a sabonete.


Danilo compreendeu ali, na porta de seu apartamento, que Sabina seria para sempre a fonte de seus desejos, alegrias e temores, a caixa de Pandora que guardava os segredos da existência.

Mas a primeira frase de Sabina,

“Por favor, me esquece”

fez o coração de Danilo esquecer de bater.

Da forma mais doce, porém impiedosa aos olhos e ouvidos de Danilo, Sabina lhe contou sobre Edgar. O conhecera em uma festa na praia, e a distração inicial para seus pensamentos acabou se tornando o principal tema deles. Fala frisando sempre o ê, fechado, forte, “Êdgar”. Estava apaixonada.

Agradeceu a declaração, embaraçada, envergonhada por não saber o que fazer com os frangalhos de Danilo – não só o coração, estava inteiro em pedaços.

Danilo fechou a porta, sabendo que, a cada segundo, Sabina se afastava de seu apartamento, de seu amor e de sua vida. Inventou um mal-estar súbito para justificar a ausência às aulas, trancou-se no quarto e se enterrou na cama, buscando dormir e não mais acordar.

Mas acordou, sem poder impedir a chegada de um outro dia. Quis amaldiçoar Sabina, Edgar, a si mesmo. Queria que sumissem os dois, queria sumir. Vizinhos, sabia que veria sempre Sabina, e seu galante “Edgar”.

Enquanto vivessem por ali, veria os beijos ao portão, o convidado para os almoços de domingo, com Dona Sara se esmerando em preparar sua comida predileta.

Danilo se imaginou vendo os presentes de casamento chegando, os filhos levados para a escola, as saídas para a praia com cadeiras e guarda-sol a tiracolo.

E com o tempo descobriu que a dor de todos esses devaneios e suas possibilidades de se tornarem reais era suportável. Podiam se concretizar em dois, sete, doze anos.

Insuportável mesmo era a janela, e dela poder ver todo seu passado e o agora impossível futuro, contidos naquela frustrada declaração de amor, a lembrar um tempo feliz, quando Sabina era apenas Bina, e Danilo, seu Dan Dan.

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postado por Aleksandra Pereira às 8:44 PM | 13 comentário(s)
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
AI, ADELAIDE!
- Adelaide, passa a pipoca. A pipoca, Adelaide!

- Psiu! Quieta!

- Mas eu tô com fome!

- Dá logo essa pipoca prá menina, Adelaide.

- Peraí. Ai, como ele é lindo...

Adelaide, nossa heroína, é uma jovem decidida, curiosa e romântica. Do alto de seus incompletos 16 anos, seu maior sonho é sair de sua cidadezinha e viver uma vida de estrela de cinema, ao lado, é claro, de um ator incrivelmente famoso. Um desejo nada incomum na cabecinha fértil de uma jovem sonhadora.

Seu refúgio são as salas do Cine Marechal. Nelas, seu pensamento voa e ela se imagina vivendo todas as aventuras, curtindo todos os momentos românticos e de grande paixão, contracenando com astros e estrelas tão conhecidos e familiares, num mundo onde todos falam inglês, é claro, inclusive ela. Sua admiração pelo mundo do cinema é tão grande, que muitas vezes Adelaide confunde realidade e fantasia.

Suas melhores amigas são Neide e Cidinha, que dividem com Adelaide o gosto pela sétima arte, mas muito mais realistas e interessadas nos moçoilos da cidade mesmo.

- Ai, que tédio!

- Adelaide, pára de reclamar da vida, mulher.

- É, Adelaide. A vida aqui é tão boa, tranqüila...

- Esse é o problema: não acontece nada nessa porcaria de cidade! Ai, como eu queria que um grande astro viesse me buscar aqui, me tirar desse fim de mundo!

- Adelaide, Alegria não é uma cidade tão ruim assim de se viver.

- Alegria? Essa cidade é uma tristeza de dar dó!

- Ai, Adelaide!

Além disso, Cidinha e Neide partilham entre elas o gosto pela mais marcante paixão nacional: a televisão. Acesso às novelas, notícias, programas humorísticos, logo ali, na sala de suas casas, sem se preocupar em que roupa vestir para agradar os brotinhos. Só mesmo Adelaide ainda não se interessara pela “caixa mágica”, sempre pensando em seu grande amor da semana, ou da última sessão de cinema.

Adelaide é uma moça bonita mas de temperamento forte, como Catarina, de “A Megera Domada”. Ela quer escolher seu amor, não ser escolhida. Alguns já tentaram, mas ela não cede. Entremeando realidade e fantasia, ela vai levando sua vida até que um dia um grande astro a leve dali. Sua persistência em seu desejo é tão intensa, que Adelaide humilha o pobre do aprendiz de padeiro Pereirinha, filho do senhor Pereira. O triste rapaz a segue por todos os lugares, suplicando um olhar, um gesto, uma palavrinha, e nada. Ao seu lado, Adelaide imagina uma vida inteira atrás do balcão, com seus filhos se tornando padeiros, seus netos...

Adelaide preocupa a mãe, Dona Nair. Mal come, vive suspirando pelos cantos. Toda semana, um nome de homem diferente: Guilhermo Alejandro, Felipe Anselmo, Mateus Ventura, Lourenço Aguiar... e sempre apaixonada por todos. Mal come. Diz que se alimenta com o seu amor...

- Menina, amor só enche barriga quando a moça engravida. O que você andou aprontando, Adelaide?

- Ai, Dona Nair!

Sua mãe faz o que pode para conter as loucuras da filha. Vive ajoelhada em frente ao seu altar para Santa Rita de Cássia, com seu terço na mão, pedindo paz e juízo para a filha desvairada:

- Ai, minha Santa Rita de Cássia, ajude a Adelaide! Faça com que ela crie juízo, que esqueça de uma vez por todas essa história de cinema e arrume logo um bom namorado para fazer um bom casamento. Tô vendo que ela vai ficar é solteirona e pra titia, que Silene tá é cuidando da vida dela.

Adelaide, em seu quarto, também reza para sua Santa Rita, mas não aquela mesma de sua mãe:

- Ai, minha Santa Rita, minha Santa Ritinha. Minha Santa Rita Hayworth, faça com que meu príncipe encantado de Hollywood venha logo me buscar, para o meu casamento dos sonhos. Não quero ficar solteirona! Ah, e me faça ficar poderosa como a senhora em “Gilda”, por favor. Amém.

Adelaide possui excepcional talento para copiar os figurinos de suas musas inspiradoras. Vira noites debruçada sobre a máquina, cosendo, procurando o que fazer naquele lugar, o que acaba lhe dando uma boa idéia: já que possui energia e tempo de sobra, além de ser boa em copiar vestidos, por que não costurar para fora? Como diria sua mãe, “distrai a cachola de besteira, e também vai te dar um dinheirinho”.

E assim Adelaide seguiu levando sua vidinha. Foi com orgulho que viu seu trabalho ser requisitado por todas as senhoras de Alegria, tornando seu mínimo espaço de produção no “Ateliê Adelaide – costuras de classe”. Costurava dia e noite e ainda com três ajudantes, pois sozinha não dava mais conta. Mal via Neide e Cidinha, que namoraram, desmancharam, namoraram, até noivarem e se casar, deixando a cidade muito antes de Adelaide, que já se aproximava dos 30. Neide se tornou professora na capital e vizinha de Cidinha, que perseguiu seu sonho e se tornou garota-propaganda na televisão. Vendia de tudo, mas o que mais gostava era de anunciar produtos alimentícios.

A mais nova e, por incrível que pareça, duradoura paixão de Adelaide era Leandro Villar, astro do cinema paulista, protagonista de fitas badaladas como “Sem fronteiras para amar” ou “Colinas da Paixão”, um tipão. Sua mais recente produção, “Amor do interior” procurava um local ainda bucólico para as filmagens, e anunciaram justamente gravar em Alegria alguns trechos. Como Adelaide amava sua cidade!

A praça principal estava escura de tanta gente, fios e equipamentos. Adelaide tenta daqui, se estica dali, e consegue ver o que acredita ser o pescoço de Leandro Villar, o mais perto que já chegara de um astro de cinema. Esperará atentamente que acabem para correr e lhe falar qualquer coisa, se não estiver emocionada para tanto.

Mas aquele dia passava devagar. Horas e horas onde cenas se estendiam, sem Adelaide entender. Quantas vezes repetiam o mesmo trecho, arrastando a câmera, e de novo, e mais uma vez. Nunca havia imaginado que ver uma produção assim, de perto, seria tão... chato. Cansou. Precisava ir ao banheiro.

Adelaide sai correndo por entre a multidão, quando tropeça em um dos muitos fios, ou pés, não se recorda. Só sabe que tropeçou, caiu e bateu a cabeça, o que comprova a fina cicatriz que ficou depois. Acordou com o céu escuro sobre si, de pessoas amontoadas, curiosas. Entre elas, segurando sua mão, Leandro Villar. Só podia estar vendo coisas.

- Me deixem passar, é minha filhinha, Adelaide! - gritava Dona Nair.

- Eu estou bem, estou até vendo estrelas – respondeu uma atordoada Adelaide.

- Calma, minha pequena. Você sofreu um pequeno acidente, mas está bem. Eu a levarei para casa, daremos uma pausa – disse Leandro Villar, voz suave, com todo o charme que ela via na sala escura do cinema.

- Isso, mãe, ele me levará daqui, eu falei...

- Moço, vamos logo, ela tá delirando!

- Se eu estiver delirando, por favor, não me acordem!

Adelaide voltou para casa nos braços de Leandro Villar, super astro, seu astro, o grande amor de uma vida. No caminho já se imagina entrando na mansão deles, recém-casados, os três filhos lindos e bem cuidados, as festas que iriam, a vida que levaria...

Leandro Villar limpa com cuidado o machucado em sua testa, ali, tão perto dela.... Aqueles olhos! Sempre lhe denotavam algo familiar, mas assim, tão próximo, a suspeita crescia, urgia, gritava:

- Perei... Pereirinha?

- Eu.

- Você é Leandro Villar?

- Leandro Villar sou eu, sim.

- Mas por quê?

- A garota por quem eu fui apaixonado era louca por astros de cinema. Um dia, um amigo de um amigo precisava de um figurante para uma produção, eu me ofereci, fui muito bem, e aqui estou.

- Por que Leandro Villar?

- Antonio Afonso Ramos Pereira não é nome de ator famoso, não acha?


Leandro Villar, Pereirinha, pega as mãos de Adelaide.

ADELAIDE
E a garota?

PEREIRINHA
(irônico) O que tem ela?

ADELAIDE
(num muxoxo) Não é mais apaixonado por ela?

PEREIRINHA
Não.

ADELAIDE
Ah, que pena.

Adelaide vira o rosto para esconder as lágrimas. Pereirinha pega seu queixo e a faz olhar para ele.

PEREIRINHA
Hoje ela é uma linda mulher, e eu a amo.

ADELAIDE
Oh, Pereirinha!

Pereirinha e Adelaide beijam-se apaixonadamente.

PEREIRINHA
Ai, Adelaide!

CORTA PARA:

INTERIOR – IGREJA - DIA

Adelaide e Pereirinha no altar, igreja cheia, com Cidinha e Neide como Madrinhas e Dona Nair chorando copiosamente.

ADELAIDE (falando para a câmera) Eu não disse que ainda me casaria com um astro de cinema?

NEIDE E CIDINHA (suspirando)
Ai, Adelaide!

FIM

FADE OUT

DIRETOR (OFF)
Corta! A cena ficou ótima, podemos ir para casa, pessoal!

CRÉDITOS FINAIS


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postado por Aleksandra Pereira às 9:07 AM | 3 comentário(s)
sexta-feira, janeiro 25, 2008
"Andar com fé eu vou"


Otacílio dizia-se “sem sorte”. Sim, sem sorte, pois todos sabem que dizer-se azarado, dá azar.

Não passava debaixo de escada, corria de gato preto, não mantinha espelhos com medo de quebrá-los e ganhar, assim, sete anos de... você sabe.
Evitava o número 13, levantar com pé esquerdo e praga de mãe, mesmo quando vem da dos outros.

Usava, espalhados pelo corpo, figa, patuá, medalhinha do Anjo da Guarda, retratinho de Nossa Senhora, fitinha do Senhor do Bonfim, trevo de quatro folhas, cabelinho de criança batizada no dia de Natal, ramo de arruda e pé de coelho. Esse último, desistiu de carregar. Se desse mesmo certo, teria salvo o pobre do coelho que guardava quatro.

Nada adiantava, a maré não virava ao seu favor. Perdera o emprego e, junto com o fim do dinheiro, a esposa e os dois filhos. Ameaçava ser preso por não ter como pagar a pensão alimentícia e nem a pensão da Dona Cota, onde vive e mal paga com os bicos que faz.

Os amigos e parentes se afastaram. Quem queria ao lado um imã ambulante de má sorte?

Quando Otacílio conseguia agendar uma entrevista de emprego, acordava atrasado, tinha o salto do sapato quebrado e o ônibus rebocado. Conseguia convencer uma garota a um encontro? A calça rasgava e a única camisa em bom estado ganhava um banho de espaguete.

Otacílio bem que se esforçava, coitado. Ano Novo era o primeiro a pular as 7 ondas, pedindo focas aos santos e orixás, sem distinção. Toda ajuda é bem-vinda para quem está na mão. Corria para casa, subindo a escada comendo uva e romã, tomando cuidado para não derrubar o vinho tinto com 3 grãos de arroz na camisa branca nova, comprada em prestações.

E tudo continuava na mesma, até a virada do último ano. Chateado, resolveu jogar fora todos os seus amuletos. Sentiu-se bem, com pelo menos 2 quilos mais leve. De camiseta vermelha desbotada, bermudão e chinelo de dedo, acompanhou os fogos pela TV, para espanto dos outros moradores.

E seguiu assim a vida. Meses depois o encontrei num shopping center, fazendo compras ao lado de uma bela morena. Admirado com a mudança, quis saber das boas novas, que não eram só boas, eram ótimas: Otacílio recebera de herança uma gorda quantia, deixada por uma tia avó que vivia distante, chegada a sua falecida mãe. No aeroporto, indo para a pequena cidade de sua afastada parenta, reencontrou Irene, namorada dos tempos de colégio, recém-divorciada e bem de vida.

Um amor antigo, uma herança ligada ao passado. O atual racional Otacílio não acredita mais em amuletos e superstições, preferindo levar a vida de uma forma mais tranqüila. Mas toda virada de ano passa de bermudão, chinelo de dedo e a velha e desbotada camiseta vermelha. Só por garantia.



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postado por Aleksandra Pereira às 10:53 AM | 5 comentário(s)
terça-feira, dezembro 18, 2007
COISAS QUE O CORAÇÃO SABE DE COR
Mais um dia de faxina. Cordélia separa o lixo e nele despeja fotos, cartas, discos, lembranças, e os cacos de seu coração partido.

Apostara todas as suas fichas em um homem antes gentil, amoroso, companheiro. Passou a dormir sozinha, grossas lágrimas esquentando o travesseiro.

Se indagava onde errara, o que dissera, o que não perguntara, questões que sabia de cor. Jurara não se envolver, se apaixonar. Mais uma vez se doara, inteira, entregue.

Cordélia se fechou em sua tristeza, em seu mundo sem cor. Enfiou a cabeça no trabalho, mas ao fim de um mês pediu demissão. Faltava amor ao que fazia.

Seu caminhar, esperançoso e confiante, tornara-se tímido, acanhado, inexpressivo. Procurava não chamar a atenção, mantendo no rosto a máscara mais comum do mundo.

Mas mesmo sem intenção, sem querer, Cordélia chamara a atenção de Luiz Gustavo. A apatia da moça lhe inspirava compaixão e vontade de conhecer a mulher que se escondia sob a capa de melancolia. E, sem saber o que fazer, lhe sorriu. Um sorriso que incomodou Cordélia.

E Luiz Gustavo continuava a sorrir. Na entrada do prédio, lanchonete, supermercado. Na barraca de frutas, posto médico, biblioteca. Cordélia não entendia o motivo dele sempre lhe sorrir, e como ele sorria!

Sabia que o rapaz a intrigava. Sonhava com suas covinhas, seus profundos olhos negros, seu olhar impaciente, à espera. “Esperando o quê?”, a moça se indagava.

Cordélia sentiu seu peito doer. Maltratado e sofrido, Cordélia esquecera de seu pobre coração, que ansiava por voltar a pulsar, bater com vontade.

“Não, isso não é amor. É hora de largar o cigarro”. E marcou um checkup para tranqüilizar o coração iludido. Pela primeira vez na vida queria uma justificativa em um mal físico, não uma comoção adolescente por causa de um sorriso.

Um sorriso. Já se enganara com tantos outros antes, não poderia ser aquele o certo. No máximo o homem por trás daquele riso delicado a julgara fácil, carente. Como todos os outros.

Os exames lhe viram do avesso. Nada.

“Mais saudável do que eu”, brincara um dos médicos.

“Seu coração está muito bom”, disse a voz entrando na sala onde ela aguardava. “Coração de menina. Ainda procurando um grande amor na vida?”.

Colérica, indignada, Cordélia quis o pescoço daquele médico que lhe falava assim, pelas costas, de seus próprios sentimentos e...

E antes de dizer alguma coisa, Cordélia se calou.

“Não se preocupe. Seu coração está em boas mãos”, disse Luiz Gustavo, sorrindo.

Doutor Luiz Gustavo. O misterioso dono do sorriso instigante, o estranho a quem Cordélia entregou seu coração, que sabia como ele pulsava, em qual ritmo, e agora por quem ele batia.

Cordélia corou, respirou fundo. Identificou o sentimento: era amor mesmo. O que poderia fazer? Afinal de contas, quem um dia entenderia mais daquele sofrido coraçãozinho, do que seu cardiologista?


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postado por Aleksandra Pereira às 1:43 PM | 0 comentário(s)
sexta-feira, abril 20, 2007
“DO FIM ATÉ O COMEÇO”
horácio podia ter muitos defeitos, mas nem sempre fora um rapaz sem ambição, acomodado. Sonhara estudar Biologia, mas as escolhas que precisou fazer na vida o tornaram motorista de ônibus.

Todos os dias o mesmo trajeto, repetidas vezes, sobe gente, desce gente, “ô menino, pode pular a catraca não”, salário miserável no fim do mês, todo dia mais do mesmo. horácio se sentia sozinho, perdido, e já não sonhava mais em estudar: queria era moça boa para casar e ter filhos, muitos deles.

Mas seu trabalho não facilitava o contato com mulheres, as várias que iam e vinham em seu ônibus, algumas por todos os dias. A plaquinha de “Proibido falar com o motorista” lembrava a importância de manter sua atenção no trânsito, e o máximo que podia fazer era responder aos cumprimentos, devolver o troco, desejar bom-dia.

Em seu caminho, horácio quase sempre parava em um grande ponto de ônibus que tinha ao lado uma barraquinha de doces. Nela inara, uma senhora queimada pelo sol e com cara de poucos amigos batalhava o sustento da família. horácio aproveitava o entra e sai de pessoas e trocava dinheiro, jogava algumas palavras fora e comprava chicletes de hortelã – para manter o hálito fresco.

Chegava em casa cansado, e sonhava; algumas vezes tinha pesadelos, onde corria perseguido por um ônibus, e por mais que dobrasse diferentes esquinas, dava sempre na mesma rua. Acordava assustado, encharcado, procurando se convencer de que tinha sorte em garantir o dinheiro para o aluguel e o plano de saúde de dona vânia, sua mãe.

É dia de folga, e horácio resolve dar um passeio pela cidade. Com seu percurso já registrado pelo cérebro nem percebera que, mesmo caminhando, repetia o trajeto de seu ônibus. Já que estava por ali, passaria na banca de inara para um “oi” e alguns chicletes.

Para sua surpresa, inara não estava lá. Em seu lugar na barraquinha de doces, uma moça jovem, nem bonita de todo, muito menos feia, escondendo-se atrás de um catálogo da Avon.

horácio infla o peito, ajeita a postura, e puxa conversa enquanto escolhe algumas balas. Três pacotes de doces e um refrigerante depois, horácio saboreava o nome recém-conhecido: Madalena. Leninha, para a mãe inara e os irmãos celso e edivan, Lena para os amigos. horácio poderia se considerar um? Sim, e assim fez.

Lena enrolava um cacho de cabelo com o dedo quando lhe perguntou o que fazia. horácio hesitou, mas respondeu, e foi se empolgando quando a pequena revelou querer muito aprender a dirigir e que achava muito bonito ser motorista de ônibus, tão útil para tantas pessoas.

Abobalhado, Horácio flutuava no caminho para casa. Dormiu um sono sem sonhos, tranqüilo. Acordou feliz. Não lhe atingiam mais a falta de educação das pessoas, o salário minguado, o caminho diário já tão conhecido. Só lhe importava imaginar que a vida lhe apontava um novo sentido, tendo nos braços de Madalena seu porto seguro, o ponto final. E o começo de tudo.


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postado por Aleksandra Pereira às 8:25 PM | 9 comentário(s)
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
CONCURSO "ENCAIXE A FRASE" REVISTA PIAUÍ
Quem acompanha o blog já leu esse conto aqui, mas estou re-postando hoje com modificações. Não gosto de adaptar textos para moldá-los aos concursos, mas nesse o fiz por duas razões: não tirava em nada a essência da versão anterior, e precisava mesmo de mais molho. E valeu como exercício, acrescentar novas linhas e depois lapidar para o espaço. Foi uma interessante experiência.

Após ler o conto do Biajoni sobre as angústias de Bob Dylan, dentro da proposta da Revista Piauí em criar um texto encaixando uma frase, me lembrei desse "Lágrimas lavadas", que achei já delineado para abrigar a frase solicitada, que neste mês foi:

"Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!"

Os textos aprovados pela redação são postados no site da revista. O melhor, será impresso na próxima edição (creio eu que seja na próxima). Quem perdeu esse pode aguardar os próximos, lembrando sempre de enviar o conto antes do dia 20, com até 3200 caracteres (espaços inclusos).

Aproveitem e prestigiem os já publicados no site. Dos sintéticos de tão curtos ao que quase estouram o limite exigido (o meu, no caso), surgiram os mais variados textos.


LÁGRIMAS LAVADAS

Casamento, Dois, Um. Juras, Cobranças. Casa, Filhos. Tempo. Vaidade. Alice precisa tirar férias da sua vida. Mas como mal podia parar para respirar, deu-se uma mísera tarde a se regalar no shopping, espairecer. De aspecto cansado e descuidado, sua auto-estima nada melhorou ante aquele desfile de mulheres lindas e saradas. E, com uma delas, perdido em curvas moldadas por cirurgiões e academias, o marido Evandro. E o cara-de-pau ainda fez de conta que não a viu.

- Deixa de ser boba, Alice. Quarta-feira, e eu bobeando com uma lôra no shopping?
- Eu não disse que era loira, Evandro.

- Disse.
- Não disse, não.
- (...) Bom: loira ou morena, não era eu.

- Era, Evandro. A mão que escorregava nos cabelos tingidos dela usava essa mesma pulseirinha que a Eva te deu e fez prometer não tirar. Eva. Nossa filha, tá lembrado?

- Tá bom. (...) Era eu. Mas era uma reunião, de negócios.

- Sei. E quais você anda fechando? Importação e exportação? Contou prá loira que já possui acordo com outro país?

- Você entendeu tudo errado, Alice...

- Quieto, Evandro! Chega. São doze anos, Evandro! Doze anos de mentiras!

- Eu não tô mentindo, Alice. Olha, eu juro por...

- Se jurar por nossos filhos de novo, eu te mato!
- Calma, vem aqui, meu bem...
- Me larga, Evandro! Traidor, você mente tanto, tanto, que já não sei mais o que é verdade é o que é mentira em você!

- Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!

- Mas é mentiroso!
- É tudo a mesma coisa, mulher!

- Então já que é tudo a mesma coisa, volta lá prá tua lorôna e pede prá ela fazer o teu jantar, que eu cansei.


Vomitando a alma, Alice fez sua mala e a dos filhos, tomando o caminho para a casa dos pais. Chorou até secar. E como a maioria das mulheres que se vêem sozinhas ao fim de um relacionamento, reassumiu sua vida e seguiu em frente.

Mas ainda lhe incomodava lembrar a traição do marido. Após anos jogados fora, só deixá-lo era pouco. Faltava ainda o golpe final: raspou a conta conjunta poupada há anos e investiu em uma bela repaginada. Roupas, sapatos, cabelos, cabeça. Nunca ficara tão feliz em ver Evandro duro.

E quando o próprio resolveu tirar satisfações esperava encontrá-la na pior, mas estava ainda mais bonita que no início do casamento. Ele então tentou de tudo: desculpas, serenatas, flores.

Alice o recebeu de volta. Foi a melhor esposa, a mais devotada mãe, a mais fogosa amante. Até Evandro receber misteriosas cartas, estranhos telefonemas. Alguém, um amigo preocupado, o avisava da traição da mulher.

Evandro não mais dormia ou comia direito. Vigiava Alice nos mais íntimos momentos, estudava cada mínima mudança. Nada.

Decidiu não ligar para as denúncias de infidelidade e seguir feliz. Mas um engarrafamento na Marginal o tirou do caminho habitual e não pôde evitar ver sua mulher em um carro saído de um motel, a mão nos cabelos ainda úmidos e o melhor sorriso para um homem que não era ele.

Tesourando o tráfego, Evandro volta para casa, espumando. Uma hora depois é Alice quem chega com filhos e mochilas, sua esposa no melhor momento de mãe exemplar. Reprimindo a raiva, Evandro a questiona, acusa, aponta. Esperava que Alice chorasse ou ajoelhasse pedindo perdão, mas ela nada rebate. Confuso, ele quer respostas. Precisa delas.

- Era você, Alice, com outro, saindo do motel?
- Era.
- Fala assim como se não fosse nada, sem nenhuma consideração?
- A mesma que teve por mim, no shopping, cheirando o cabelo daquela loira vagabunda?
- Alice! Você ainda não esqueceu daquilo? Foi um erro, meu bem, eu nem me lembrava mais. E você me perdoou, não perdoou?
- Perdoei.
- E então? Prá quê isso agora?
- (...) Crime de amor não prescreve.

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postado por Aleksandra Pereira às 11:06 AM | 8 comentário(s)
segunda-feira, janeiro 01, 2007
ANDAR COM FÉ EU VOU
2ª Publicação

Otacílio dizia-se “sem sorte”. Sim, sem sorte, pois todos sabem que dizer-se azarado, dá azar.

Não passava debaixo de escada, corria de gato preto, não mantinha espelhos com medo de quebrá-los e ganhar, assim, sete anos de... você sabe.

Evitava o número 13, levantar com pé esquerdo e praga de mãe, mesmo quando a mãe era a dos outros.

Usava, espalhados pelo corpo, figa, patuá, medalhinha do Anjo da Guarda, retratinho de Nossa Senhora, fitinha do Senhor do Bonfim, trevo de quatro folhas, ramo de arruda e pé de coelho. Esse último, desistiu de carregar. Se desse mesmo certo, teria salvado o pobre do coelho que nascera com quatro.

Mas nada adiantava, a maré não virava a seu favor. Perdera o emprego e, junto com o fim do dinheiro, a esposa e os dois filhos. Ameaçava ser preso por não ter como pagar a pensão alimentícia e nem a pensão da Dona Cota, onde vivia e mal pagava com os bicos que fazia.

Os amigos e parentes se afastaram. Quem queria ao lado um imã ambulante de má sorte?

Quando Otacílio conseguia agendar uma entrevista de emprego, acordava atrasado, tinha o salto do sapato quebrado e o ônibus rebocado. Conseguia convencer uma garota a um encontro? A calça rasgava e a única camisa em bom estado ganhava um banho de espaguete.

Ele bem que se esforçava, coitado. Ano Novo era o primeiro a pular as 7 ondas, pedindo forças aos santos e orixás, sem distinção - toda ajuda é bem-vinda para quem está na mão. Corria para casa, subindo a escada comendo uva e romã, tomando cuidado para não derrubar o vinho tinto com 3 grãos de arroz na camisa branca nova, comprada em prestações.

E tudo continuava na mesma, até a virada do último ano. Chateado, resolveu jogar fora todos os seus amuletos. Sentiu-se bem, mais leve uns 2 quilos pelo menos. De camiseta vermelha desbotada, bermudão e chinelo de dedo, acompanhou os fogos pela TV, para espanto dos outros moradores.

Otacílio seguiu assim a vida. Meses depois o encontrei num shopping center, fazendo compras ao lado de uma bela morena. Admirado com a mudança, quis saber das boas novas, que não eram só boas, eram ótimas: Otacílio recebera de herança uma gorda quantia, deixada por uma tia avó que vivia distante, chegada à sua falecida mãe. No aeroporto, indo para a pequena cidade de sua afastada parenta, reencontrou Irene, namorada dos tempos de colégio, recém-divorciada e bem de vida.

Um amor antigo, uma herança ligada ao passado. O atual racional Otacílio não acredita mais em amuletos e superstições, preferindo levar a vida de uma forma mais tranqüila. Mas toda virada de ano passa de bermudão, chinelo de dedo e a velha e desbotada camiseta vermelha.

Só por garantia.

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postado por Aleksandra Pereira às 10:49 AM | 16 comentário(s)
segunda-feira, dezembro 04, 2006
2ª PUBLICAÇÃO

CORAÇÃO SOLITÁRIO estava assim, muito só. Coraçãozinho magoado, pisado e machucado, já sofrera demais, e por tantas vezes...

Mas o que tinha de solitário, esse coração tinha de esperançoso. Nutria o desejo de encontrar o amor perfeito ao dobrar a esquina, arrebatador, a felicidade total e absoluta. Sonhar não custa nada mesmo.

CORAÇÃO SOLITÁRIO escrevia sempre para a coluna sentimental de um jornal, campeã de cartas. Assustava ver quantas pessoas reclamavam alguém para esquentar o pé no inverno, aquela tampa de panela, a metade da laranja – ou da maçã, pêra, melancia, não importava. O que se buscava era alguém, mesmo com defeitos, para preencher o eterno vazio, para dividir os sonhos.

Entre aquelas pessoas poderia estar sua cara metade, a companhia para uma vida inteira.

“CORAÇÃO SOLITÁRIO procura alma irmã que goste de ler, ir ao cinema, jantar fora e viagens a dois. Dispensa pessoas aventureiras e que não queiram compromisso.”


Daria certo desta vez? AMOR VERDADEIRO responde ao anúncio de CORAÇÃO SOLITÁRIO com receio. Parecia bom demais para ser verdade. Alguém sensível e interessante, ainda buscando o... amor verdadeiro...

CORAÇÃO SOLITÁRIO se enche de esperança com a resposta de AMOR VERDADEIRO. Se correspondem com intensidade por cartas, e-mails.

Passa o Natal, Ano Novo, Páscoa, até decidirem se encontrar. Marcaram para o Dia dos Namorados, a oportunidade de se conhecerem e não deixarem a data passar em branco, sozinhos, mesmo que se tornassem somente amigos.


12 de junho, camisa verde e rosa branca, entrada do Itaú Cultural, 19 horas.


Um duplo susto. Se descreveram, mas imaginavam-se diferentes. Mas os gostos combinavam, descobriram amigos comuns, freqüentavam a mesma livraria.

Noite agradável, vento nos cabelos, risadas espontâneas, sinceras. Um beijo. Um convite. Um sim.

CORAÇÃO SOLITÁRIO volta radiante para casa. Sentia que sua busca chegava ao fim. Prometeram se ligar no fim da tarde, marcar um jantar, esticar. Cabeça cheia de idéias, perguntas, vontades.

Meia-noite, nada.
Um dia, dois, cinco. AMOR VERDADEIRO não dá um sinal, satisfação, sem e-mails, cartas, telefonemas. CORAÇÃO SOLITÁRIO se preocupa, se aflige, se desespera. Se despedaça.


CORAÇÃO SOLITÁRIO não acredita mais em AMOR VERDADEIRO.


AMOR VERDADEIRO não fez por mal. Sofrera demais ao acreditar em antigas promessas, o que tornava imenso seu medo de arriscar de novo. CORAÇÃO SOLITÁRIO tinha algo de diferente, especial, mágico. Sentia que era a pessoa certa, mas não sabia o que fazer. AMOR VERDADEIRO poderia implorar, pedir perdão. Mas nada fez.

CORAÇÃO SOLITÁRIO decidiu esquecer, deixar pra lá, seguir em frente. Não ligou, não escreveu. Simplesmente não quis mais saber.


CORAÇÃO SOLITÁRIO ainda procura amor verdadeiro.

Amor verdadeiro ainda nutre esperanças de fazer feliz um coração solitário.

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postado por Aleksandra Pereira às 10:17 AM | 8 comentário(s)

Quando conta nem ela mesma acredita, mas Anete perdeu seu marido enquanto faziam compras no supermercado. Sim, perdeu. Há dois anos.

O que Anete não soube foi que, enquanto escolhia entre testar ou não uma marca nova de detergente, Durval, o marido perdido, rumava em direção ao perigo que o aguardava em meio às delícias do setor das guloseimas:

Xênia, prestativa demonstradora de biscoitos, um sorriso nos lábios, a mocidade latente e tudo o que Durval queria para ser feliz: 96 de busto, 74 de cintura, 98 de quadril.

A curvilínea prestadora de serviços só precisou lhe dizer: “Vem!”. E ele foi.

Anete ainda assina o sobrenome de Durval – legalmente, ainda é casada. Nunca se sabe, talvez um dia, uma noite, Durval retorne cansado, com seu velho andar pesado, reclamando o jantar na mesa.

Volta, Durval. Hoje a Anete fez Picadinho.



pintura do belga Magritte
"eu faço uso da pintura para tornar os pensamentos visíveis".

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postado por Aleksandra Pereira às 1:47 AM | 6 comentário(s)
segunda-feira, novembro 20, 2006
CARTAS AO TEMPO

Nina em tudo era a primeira: matemática, história, natação, culinária, sempre a mais aplicada em qualquer coisa que quisesse fazer.

E como o primeiro lugar permanecia ocupado, Roberta amargava os dissabores de ser a “segunda melhor”. Ela chegava mais cedo, devorava livros, interrogava professores, ralava para alcançar o que Nina obtinha com facilidade e sem suar os cabelos.

Quis o destino que as duas fossem amigas, Nina e Roberta. Por mais que a segunda (viu só?) desejasse ser a primeira com fervor, lhe queria bem. Às vezes brigavam de se estapear, é verdade, mas nada que não aconteça nas melhores famílias ou entre as melhores amigas.

Seguiram do primário ao colegial assim, discutindo por tudo: uma fita de cabelo, um vestido amareladamente mais bonito, um papel na peça da escola, namorados. Por esses as brigas eram as piores.

As duas conheciam o mesmo garoto, normal. Era Nina se interessar por ele, Roberta já reclamava seu secreto apreço pelo rapaz, agora atrapalhado pela “traição” de Nina que o “roubava” de caso pensado. Nina podia jurar, ajoelhar, implorar a atenção da amiga, mas a birra custava a desmanchar – até Nina não demonstrar mais vontade pelo menino, aí voltava tudo a ser como antes.

Ainda que vivessem coladas por serem vizinhas (mas a rua do lado de Nina era mais bonita) e estudarem nas mesmas turmas, se encontravam todo fim de tarde, para terminarem uma conversa começada no recreio,
lerem romances às escondidas entre risos abafados e gritinhos, fosse para fazerem planos.

Nina sonhava ser escritora, viajar o mundo inteiro, casar com um astro do cinema e ter quatro filhas. Roberta viajaria o mundo antes de ter seus quatro filhos (que se casariam com as quatro de Nina) e seria uma grande cineasta dirigindo o marido, mega astro do cinema. Depois contaria toda a sua vida no livro que iria escrever.

Naquele 20 de março, em especial, propuseram um pacto: escreveriam seus planos para o futuro, deixariam beijos e abraços para a família que já tinham e também para a família que formariam. Em uma lata de café guardaram cartas, fotos, recortes, a fita azul do cabelo de Nina e a pulseira de castanhas de Roberta, além do aviso: “Se você não for nem a Nina ou a Roberta, não mexa, seu xereta!”. Pronto. Escondida aos pés da jabuticabeira, na direção da ponte, uma lata furtada da cozinha ainda cheirando forte, abrigava desejos e o futuro de duas grandes amigas, que o seriam até o fim da vida.

A amizade durou mais seis anos após aquele dia. Nina se apaixonara por Mateus, rapaz sofisticado e bonito, filho de amigos do seu pai, paixão secreta de Roberta – sim, ela também o queria, realmente. E tanto fez, que conseguiu: desmanchou o noivado dele com a amiga, e com ele casou.

Os quatro filhos de Roberta nasceram, mas se casaram depois com moças de origens diferentes. Nunca mais soube de Nina, cuja família mudara para apaziguar o sofrimento da filha. Não ouvira mais falar dela até aquele instante, anos depois, quando teve notícias de sua morte, na Itália. Morrera dormindo.

Era assim que Roberta sonhava morrer, mas na hora não se lembrou disso. Seus pensamentos a levaram para um passo distante onde contava com uma grande amiga para tudo. Não pode apresentar para Nina sua família, filhos daquele que um dia fora dela, que hoje nem mais de Roberta era. Não sentaria com a amiga para exibir seus premiados filmes – será que Nina assistira algum? -, nem lhe daria para ler o rascunho de sua biografia, que só alcançava graça quando falava dela, Nina. Que saudade.

E a saudade a guiou até o velho pé de jabuticaba. Com um pedaço de pau, revolveu a terra exumando os desejos de uma época feliz. A lata ainda guardava um fraco cheiro de café, lembrança boa. Roberta lavou com lágrimas as envelhecidas imagens da felicidade eternizada naqueles instantâneos. A carta para os filhos, a mostraria depois. Ali, as peças preferidas – a fita de Nina, ainda com rastros de seu shampoo, uma gasta pulseira...

A vista turva identifica a letra redonda de professora de Nina, em um envelope onde Roberta lia seu próprio nome. Ao abri-lo, sentiu ao ouvido a voz daquela que lhe fazia uma falta de doer, que levou com ela a melhor parte das duas:

“Beta,
eu te amo.

Não só como amiga, nunca.

Espero que um dia saiba,
entenda e me perdoe.

Será a primeira para mim,
sempre.


Nina.”


Roberta não escreveria mais sua autobiografia, mesmo com o desfecho mais emocionado de sua vida. Perdera a amiga, a leitora, o amor, e a si mesma, tudo naquela mesma tarde, aos pés da velha jabuticabeira.

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postado por Aleksandra Pereira às 1:36 AM | 8 comentário(s)
sábado, novembro 18, 2006
Amor mais perdido
O passado de Edvaldo já era há muito obscuro quando apaixonou-se por Rosimeire, a Rose, que nada sabia nada sobre sua vida pregressa. Para ela, Edvaldo trabalhava com vendas.
Por oito anos, ele a enganou.

Quando estava grávida de sete meses do segundo filho, Rose recebeu um estranho telefonema: Edvaldo, ligando da delegacia, preso por roubar um banco. Um assaltante. Não demonstrava arrependimento, acreditava ser o Robin Hood da Zona Leste.

Ela passa mal, se revolta. Enganada, traída. Odeia Edvaldo com todas as suas forças. Mas também recorda dos momentos bons. Os finais de semana em casa com o pequeno, a horta adorada e tratada com carinho que lhe garantia os aromas do almoço, o cheiro no pescoço quando colava o corpo no seu pra dormir.

Hoje, domingo, o pequeno Vinícius e seu irmão correm com outras crianças, enquanto Rose aguarda a inspeção em sua bolsa, na entrada da Penitenciária, ostentando oito meses de gravidez. Gêmeos. Conversa animada com suas companheiras de fado, pensando que não desejaria estar em outro lugar. Gostaria que Edvaldo estivesse.

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postado por Aleksandra Pereira às 9:26 AM | 5 comentário(s)
sexta-feira, novembro 10, 2006
"ALGUÉM SABE DA MARTA?"
Essa história já foi publicada aqui, mas como "Marta", a original, primeira (e não a única) ressurge como o fantasma de meus piores pesadelos (os reais), reposto o texto. Divirtam-se, ou solidarizem-se com a minha humilde e descabelada pessoa ;-)
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- Ô Dona Marta, ainda num é hora de jogar o lixo não.
- Quebra esse galho, Seu Lázaro, tô super atrasada hoje. Tchau!
- Tchau, Dona Marta. Hoje. Toda semana, a mesma história...

Marta não tinha a mínima vocação para os afazeres domésticos. Sua residência, lar, cafofo ou qualquer outro nome que queira dar, se assemelhava a passagem do furacão Katrina: roupas pelo chão, sapatos mal estacionados debaixo do sofá, calcinhas penduradas em todos os cantos do banheiro, e restos de comida ao lado dos eletrônicos - quando não dentro. Uma desordem total.

Faxina pesada ou mesmo uma limpeza superficial, só em dias de visita, quando os armários eram entupidos com cacarecos e uma selva de trastes velhos se escondia debaixo da cama. Tirado o entulho do meio da passagem, as janelas encardidas eram abertas enquanto ardiam um ou dois incensos, para disfarçar o odor.

Trocar roupa de cama ou arrumar os lençóis? Para Marta, filosofia de vida era: “Se vou usar de novo, prá que pôr no lugar?”.

Por várias vezes trocou de companheira de quarto – mas nenhuma teve estômago suficiente; perto de Marta, todas pareciam Amélia, aquela que era mulher de verdade. Apertada para pagar o aluguel, vivia pendurada, mas não gostava de guardar dinheiro ou economizar, e dizia: “Não deixe para gastar amanhã o dinheiro que pode gastar hoje”.

Ela também gostava de frases de efeito.

Sua desorganização atingia também outras áreas de sua vida: vivia chegando atrasada ao trabalho, pois sempre perdia a hora e tempo correndo para mar banho, encontrar uma roupa razoavelmente limpa e sair. Sempre tinha um colega a perguntar: “Alguém sabe da Marta?”.

Ela aproveitava para colocar a culpa em tudo: no relógio, no trânsito, na chuva, no síndico, no elevador ou mesmo na mãe.

Por telefone, Dona Lúcia só podia enviar recomendações, “ande na linha, se esforce no emprego, guarde dinheiro, tome remédio, arrume um namorado”, e outras tantas rogativas que Marta já se acostumara a nem mais ouvir. Pelo menos a súplica para o namorado ela resolvera atender: conheceu Otávio, arquiteto bonito, inteligente e rico. A resposta para seus problemas, trazendo consigo interessantes acessórios opcionais: dinheiro para gastar, casa de praia e empregados, vários deles.

Um dia, em casa após o expediente, Otávio telefona convidando Marta para jantar, mas que se apressasse, pois chegaria ao apartamento da amada em 45 minutos.

45 minutos.
Tempo regular para quem mantivesse as coisas razoavelmente no lugar, incluindo roupas, sapatos, maquiagem... e toda a casa.

“Ferrou”.
Correndo contra o relógio, Marta executou uma limpeza que chamava de “disfarçando as evidências”: da geladeira, tudo o que estava verde ou que um dia havia sido verde, direto para o lixo, sem perdão. Meias, calcinhas, sutiãs e lenços servindo como enchimentos para as já robustas almofadas. E todos os trecos e cacarecos ainda largados para o já atulhado quarto de empregada.

Pronto. Agora um banho a jato (“Ainda bem que depilei as pernas ontem!”), um vestido preto (“Só precisa esfregar essa manchinha na barra. Ué, tá ficando maior”), uma sandália baixinha (“Eu comprei mesmo um pé preto e outro azul marinho?”). Uma escovada básica nos dentes e outra nos cabelos, prá dar brilho.

Escova. (“Secador. Onde guardei o secador? Última vez que o vi... na sala? Não. Área de serviço? Também não. Dentro da bolsa de praia! Mas e a bolsa? Quarto de empregada!”).

15 minutos.
Marta encarou as pilhas de bagunças do quarto de empregada como um jogo de pega-varetas: se tirasse a peça errada, a estrutura despencaria. E aquela obra de arte havia levado tempo para ser erguida, e ainda tinha história! Ali poderia ser encontrado, talvez, o seu primeiro videocassete, ainda com a fita do “Dirty Dancing” presa dentro, que fingia assistir enquanto tirava a calça do... do... como era o nome dele mesmo?

Tinha que considerar a situação, mas rápido: Otávio valia o esforço de recuperar o secador perdido? Beleza. Dinheiro. Empregada. Empregada... Tudo bem. Respirou fundo, e se lançou na empreitada.

Marta começou a remontar a pilha. Uma coleção de clássicos nunca lidos prá lá, revistas de fofoca prá cá, meia garrafa de vinho. E nada do secador.

Mas foi de tanto procurar, que achou. Achou toda a pilha em cima de sua cabeça. Com o deslocamento das bugigangas, Marta se viu trancada, de porta batida.

“Calma, garota. Raciocina. Com secador ou sem você terá que sair desse quartinho. Otávio não vai deixar de te amar pelos seus cabelos crespos e sem brilho. (...) Ou vai?”

Campainha. Otávio! A salvação.

Marta gritou, chamou por Otávio, que nada ouviu. Esperneou, descabelou, e nada. Quanto mais se debatia, mais afundava na bagunça e se aproximava da parede oposta à porta. Otávio, indignado com a desfeita da namorada, vai embora.

O coração nervoso reclamou, mas Marta preferiu nem lembrar que o remédio para sua dor ficara do lado de fora, no banheiro. Ou na bolsa. Na cozinha. Em algum lugar.



Marta nunca mais foi vista.
Tempos depois Otávio casou com uma atriz, dessas de revista de fofocas, que vinha com suas próprias empregadas.

O proprietário do apartamento de Marta e síndico do prédio, Seu Lázaro, é que não sabia mais o que fazer. Sem receber os aluguéis atrasados, tentou contato por telefone, celular, e-mails e cartas. Nada, nem mesmo com a mãe de Marta, coitada, que além da hérnia guardava um coração fraco pra receber susto.
Com sua cópia da chave, o senhorio entrou no apartamento.

Seu Lázaro ora pensava em Marta com tristeza, provavelmente seqüestrada e mantida refém em algum cativeiro. Ora pensava em Marta com raiva, provavelmente em outra cidade dando calote noutro locador.

Precisava do dinheiro do aluguel, mas o que fazer com toda aquela bagunça? Bagunça que, por sinal, fedia mais a cada dia.

E no escritório de Marta, volta e meia um colega ainda perguntava:

- Alguém sabe da Marta?.

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postado por Aleksandra Pereira às 9:31 AM | 5 comentário(s)

LÁGRIMAS LAVADAS© 2006, por Aleksandra Pereira. All rights reserved.