segunda-feira, novembro 20, 2006
CARTAS AO TEMPO

Nina em tudo era a primeira: matemática, história, natação, culinária, sempre a mais aplicada em qualquer coisa que quisesse fazer.

E como o primeiro lugar permanecia ocupado, Roberta amargava os dissabores de ser a “segunda melhor”. Ela chegava mais cedo, devorava livros, interrogava professores, ralava para alcançar o que Nina obtinha com facilidade e sem suar os cabelos.

Quis o destino que as duas fossem amigas, Nina e Roberta. Por mais que a segunda (viu só?) desejasse ser a primeira com fervor, lhe queria bem. Às vezes brigavam de se estapear, é verdade, mas nada que não aconteça nas melhores famílias ou entre as melhores amigas.

Seguiram do primário ao colegial assim, discutindo por tudo: uma fita de cabelo, um vestido amareladamente mais bonito, um papel na peça da escola, namorados. Por esses as brigas eram as piores.

As duas conheciam o mesmo garoto, normal. Era Nina se interessar por ele, Roberta já reclamava seu secreto apreço pelo rapaz, agora atrapalhado pela “traição” de Nina que o “roubava” de caso pensado. Nina podia jurar, ajoelhar, implorar a atenção da amiga, mas a birra custava a desmanchar – até Nina não demonstrar mais vontade pelo menino, aí voltava tudo a ser como antes.

Ainda que vivessem coladas por serem vizinhas (mas a rua do lado de Nina era mais bonita) e estudarem nas mesmas turmas, se encontravam todo fim de tarde, para terminarem uma conversa começada no recreio,
lerem romances às escondidas entre risos abafados e gritinhos, fosse para fazerem planos.

Nina sonhava ser escritora, viajar o mundo inteiro, casar com um astro do cinema e ter quatro filhas. Roberta viajaria o mundo antes de ter seus quatro filhos (que se casariam com as quatro de Nina) e seria uma grande cineasta dirigindo o marido, mega astro do cinema. Depois contaria toda a sua vida no livro que iria escrever.

Naquele 20 de março, em especial, propuseram um pacto: escreveriam seus planos para o futuro, deixariam beijos e abraços para a família que já tinham e também para a família que formariam. Em uma lata de café guardaram cartas, fotos, recortes, a fita azul do cabelo de Nina e a pulseira de castanhas de Roberta, além do aviso: “Se você não for nem a Nina ou a Roberta, não mexa, seu xereta!”. Pronto. Escondida aos pés da jabuticabeira, na direção da ponte, uma lata furtada da cozinha ainda cheirando forte, abrigava desejos e o futuro de duas grandes amigas, que o seriam até o fim da vida.

A amizade durou mais seis anos após aquele dia. Nina se apaixonara por Mateus, rapaz sofisticado e bonito, filho de amigos do seu pai, paixão secreta de Roberta – sim, ela também o queria, realmente. E tanto fez, que conseguiu: desmanchou o noivado dele com a amiga, e com ele casou.

Os quatro filhos de Roberta nasceram, mas se casaram depois com moças de origens diferentes. Nunca mais soube de Nina, cuja família mudara para apaziguar o sofrimento da filha. Não ouvira mais falar dela até aquele instante, anos depois, quando teve notícias de sua morte, na Itália. Morrera dormindo.

Era assim que Roberta sonhava morrer, mas na hora não se lembrou disso. Seus pensamentos a levaram para um passo distante onde contava com uma grande amiga para tudo. Não pode apresentar para Nina sua família, filhos daquele que um dia fora dela, que hoje nem mais de Roberta era. Não sentaria com a amiga para exibir seus premiados filmes – será que Nina assistira algum? -, nem lhe daria para ler o rascunho de sua biografia, que só alcançava graça quando falava dela, Nina. Que saudade.

E a saudade a guiou até o velho pé de jabuticaba. Com um pedaço de pau, revolveu a terra exumando os desejos de uma época feliz. A lata ainda guardava um fraco cheiro de café, lembrança boa. Roberta lavou com lágrimas as envelhecidas imagens da felicidade eternizada naqueles instantâneos. A carta para os filhos, a mostraria depois. Ali, as peças preferidas – a fita de Nina, ainda com rastros de seu shampoo, uma gasta pulseira...

A vista turva identifica a letra redonda de professora de Nina, em um envelope onde Roberta lia seu próprio nome. Ao abri-lo, sentiu ao ouvido a voz daquela que lhe fazia uma falta de doer, que levou com ela a melhor parte das duas:

“Beta,
eu te amo.

Não só como amiga, nunca.

Espero que um dia saiba,
entenda e me perdoe.

Será a primeira para mim,
sempre.


Nina.”


Roberta não escreveria mais sua autobiografia, mesmo com o desfecho mais emocionado de sua vida. Perdera a amiga, a leitora, o amor, e a si mesma, tudo naquela mesma tarde, aos pés da velha jabuticabeira.

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postado por Aleksandra Pereira às 1:36 AM |


8 Comentários:


At sexta-feira, setembro 15, 2006 12:12:00 AM, Anonymous Rose Campos 

lindo, lelê.
parabéns

At quarta-feira, outubro 04, 2006 6:01:00 PM, Blogger Andréa N. 

Ai, que tristeza. Eu adoro essas suas estorias. Vou lendo com tanta curiosidade, nao consigo parar antes do fim. E faco um filminho na cabeca, sempre.
Beijao pra ti.

At quarta-feira, outubro 04, 2006 10:24:00 PM, Blogger Aleksandra Pereira 

Andréa, você é um amor.
Obrigada. Espero continuar aguçando sua curiosidade.

Beijo grande

At segunda-feira, novembro 20, 2006 2:38:00 PM, Anonymous Leonardo 

Muuuito bom, Aleksandra! Daria um belo curta. Escreva mais! :D

At terça-feira, novembro 21, 2006 10:14:00 AM, Blogger Vivien 

Tb acho que daria um belo curta, gostei.bj.

At terça-feira, novembro 21, 2006 2:51:00 PM, Anonymous paty 

Menina que talento para a escrita heim! Beijão

At quarta-feira, novembro 22, 2006 2:53:00 PM, Blogger Aleksandra Pereira 

Leo, Vivien e Paty,

obrigada. Acho que é o hábito de escrever para cinema, a gente vai se acostumando a pensar nas imagens, onde cortar... desde que um modo não atrapalhe o outro, tudo vale.

Beijos.



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