sábado, janeiro 28, 2006
ALGUÉM SABE DA MARTA?
- Ô Dona Marta, ainda num é hora de jogar o lixo não.
- Quebra esse galho, Seu Lázaro, tô super atrasada hoje. Tchau!
- Tchau, Dona Marta. Hoje. Toda semana, a mesma história...


Marta não tinha a mínima vocação para os afazeres domésticos. Sua residência, lar, cafofo ou qualquer outro nome que queira dar, se assemelhava a passagem do furacão Katrina: roupas pelo chão, sapatos mal estacionados debaixo do sofá, calcinhas penduradas em todos os cantos do banheiro, e restos de comida ao lado dos eletrônicos - quando não dentro. Uma desordem total.

Faxina pesada ou mesmo uma limpeza superficial, só em dias de visita, quando os armários eram entupidos com cacarecos e uma selva de trastes velhos se escondia debaixo da cama. Tirado o entulho do meio da passagem, as janelas encardidas eram abertas enquanto ardiam um ou dois incensos, para disfarçar o odor.

Trocar roupa de cama ou arrumar os lençóis? Para Marta, filosofia de vida era: “Se vou usar de novo, prá que pôr no lugar?”.

Por várias vezes trocou de companheira de quarto – mas nenhuma teve estômago suficiente; perto de Marta, todas pareciam Amélia, aquela que era mulher de verdade. Apertada para pagar o aluguel, vivia pendurada, mas não gostava de guardar dinheiro ou economizar, e dizia: “Não deixe para gastar amanhã o dinheiro que pode gastar hoje”.

Ela também gostava de frases de efeito.

Sua desorganização atingia também outras áreas de sua vida: vivia chegando atrasada ao trabalho, pois sempre perdia a hora e tempo correndo para mar banho, encontrar uma roupa razoavelmente limpa e sair. Sempre tinha um colega a perguntar: “Alguém sabe da Marta?”.

Ela aproveitava para colocar a culpa em tudo: no relógio, no trânsito, na chuva, no síndico, no elevador ou mesmo na mãe.

Por telefone, Dona Lúcia só podia enviar recomendações, “ande na linha, se esforce no emprego, guarde dinheiro, tome remédio, arrume um namorado”, e outras tantas rogativas que Marta já se acostumara a nem mais ouvir. Pelo menos a súplica para o namorado ela resolvera atender: conheceu Otávio, arquiteto bonito, inteligente e rico. A resposta para seus problemas, trazendo consigo interessantes acessórios opcionais: dinheiro para gastar, casa de praia e empregados, vários deles.

Um dia, em casa após o expediente, Otávio telefona convidando Marta para jantar, mas que se apressasse, pois chegaria ao apartamento da amada em 45 minutos.

45 minutos.
Tempo regular para quem mantivesse as coisas razoavelmente no lugar, incluindo roupas, sapatos, maquiagem... e toda a casa.

Ferrou”.
Correndo contra o relógio, Marta executou uma limpeza que chamava de “disfarçando as evidências”: da geladeira, tudo o que estava verde ou que um dia havia sido verde, direto para o lixo, sem perdão. Meias, calcinhas, sutiãs e lenços servindo como enchimentos para as já robustas almofadas. E todos os trecos e cacarecos ainda largados para o já atulhado quarto de empregada.

Pronto. Agora um banho a jato (“Ainda bem que depilei as pernas ontem!”), um vestido preto (“Só precisa esfregar essa manchinha na barra. Ué, tá ficando maior”), uma sandália baixinha (“Eu comprei mesmo um pé preto e outro azul marinho?”). Uma escovada básica nos dentes e outra nos cabelos, prá dar brilho.

Escova. (“Secador. Onde guardei o secador? Última vez que o vi... na sala? Não. Área de serviço? Também não. Dentro da bolsa de praia! Mas e a bolsa? Quarto de empregada!”).

15 minutos.
Marta encarou as pilhas de bagunças do quarto de empregada como um jogo de pega-varetas: se tirasse a peça errada, a estrutura despencaria. E aquela obra de arte havia levado tempo para ser erguida, e ainda tinha história! Ali poderia ser encontrado, talvez, o seu primeiro videocassete, ainda com a fita do “Dirty Dancing” presa dentro, que fingia assistir enquanto tirava a calça do... do... como era o nome dele mesmo?

Tinha que considerar a situação, mas rápido: Otávio valia o esforço de recuperar o secador perdido? Beleza. Dinheiro. Empregada. Empregada... Tudo bem. Respirou fundo, e se lançou na empreitada.

Marta começou a remontar a pilha. Uma coleção de clássicos nunca lidos prá lá, revistas de fofoca prá cá, meia garrafa de vinho. E nada do secador.

Mas foi de tanto procurar, que achou. Achou toda a pilha em cima de sua cabeça. Com o deslocamento das bugigangas, Marta se viu trancada, de porta batida.

Calma, garota. Raciocina. Com secador ou sem você terá que sair desse quartinho. Otávio não vai deixar de te amar pelos seus cabelos crespos e sem brilho. (...) Ou vai?

Campainha. Otávio! A salvação.

Marta gritou, chamou por Otávio, que nada ouviu. Esperneou, descabelou, e nada. Quanto mais se debatia, mais afundava na bagunça e se aproximava da parede oposta à porta. Otávio, indignado com a desfeita da namorada, vai embora.

O coração nervoso reclamou, mas Marta preferiu nem lembrar que o remédio para sua dor ficara do lado de fora, no banheiro. Ou na bolsa. Na cozinha. Em algum lugar.



Marta nunca mais foi vista.
Tempos depois Otávio casou com uma atriz, dessas de revista de fofocas, que vinha com suas próprias empregadas.

O proprietário do apartamento de Marta e síndico do prédio, Seu Lázaro, é que não sabia mais o que fazer. Sem receber os aluguéis atrasados, tentou contato por telefone, celular, e-mails e cartas. Nada, nem mesmo com a mãe de Marta, coitada, que além da hérnia guardava um coração fraco pra receber susto.
Com sua cópia da chave, o senhorio entrou no apartamento.

Seu Lázaro ora pensava em Marta com tristeza, provavelmente seqüestrada e mantida refém em algum cativeiro. Ora pensava em Marta com raiva, provavelmente em outra cidade dando calote noutro locador.

Precisava do dinheiro do aluguel, mas o que fazer com toda aquela bagunça? Bagunça que, por sinal, fedia mais a cada dia.

E no escritório de Marta, volta e meia um colega ainda perguntava:

Alguém sabe da Marta?”.

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postado por Aleksandra Pereira às 9:12 PM | 4 comentário(s)
domingo, janeiro 22, 2006
É engraçado como, quando a gente é jovem, mais jovem, parece que as pessoas não morrem. Aí o tempo passa e recebemos mais e mais notícias de pessoas que se vão: um parente, um amigo, uma artista de cinema querida. Cada vez mais vamos perdendo aquele sentimento de invencibilidade que guardávamos no passado.

Me lembro que perdi alguns amigos da minha idade, mas também perdi pessoas da família. Só que a perda de um jovem amigo me doeu muito mais. Foi como se um pedaço de mim tivesse morrido junto com ele, um pedaço da minha adolescência, levado sabe-se lá para onde.



Para Edson Anibal Laureano

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postado por Aleksandra Pereira às 4:56 AM | 1 comentário(s)
segunda-feira, janeiro 16, 2006
84, Charing Cross Road
ou “Nunca te vi, sempre te amei”.

A madrugada do último domingo me trouxe a satisfação de rever esse filme. Talvez ele não entre em listas de Grandes Filmes, ou seja classificado por muitos como em categoria semelhante a dada ao “Tarde demais para esquecer”, fita homenageada em “Sintonia de Amor”: um filme para mulheres.

Que seja. Adoro esse filme, por duas excelentes razões:

1. LIVROS.
Por causa e através deles, duas vidas tão diferentes e tão fisicamente distantes se aproximaram: a da escritora e roteirista americana Helene Hanff, e a do livreiro inglês Frank Doel, casado e pai de duas filhas.
Todo o universo de amor aos livros, aos bons títulos, a verdadeira garimpagem que Frank fazia para ter sempre o de melhor para oferecer, o sabor com que Helene recebia sua encomenda de livros usados, outrora ofertados, alinhavados, por outros transportados, queridos.

2. ANNE BANCROFT.
Todo o elenco é ótimo: Anthony Hopkins, Jude Dench, Mercedes Ruehl. Mas como guardo carinho e consideração por essa atriz!

Anne iluminou todos os filmes nos quais atuou, mesmo quando só fazia pequenos papéis nos filmes do marido Mel Brooks.

A Helene Hanff real preferia biografias, e para reforçar sua predileção citava uma frase, não recordo agora o autor, ao dizer “Nunca me interessei por coisas que nunca aconteceram, pessoas que nunca viveram”. Bem diferente do trabalho de um ator, que quase sempre em seu ofício representa personagens que não nasceram da vida, mas do papel, algo que Anne fazia esplendidamente.

E quando, nos melhores momentos metalingüísticos do filme, Helene rompia a 4ª parede ao se dirigir a nós, espectadores? As palavras eram suas, mas o tom, o olhar, a graça, eram Anne Bancroft.

Como é triste pensar em pessoas que admiramos conjugando agora os verbos no passado! Não sei se a Anne Bancroft da vida era a mesma impressa nas películas, através de suas mais diversas interpretações. Mas podem procurá-la lá, nas fitas. Anne se mostrará inteira, entregue e soberana. Para sempre.

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postado por Aleksandra Pereira às 2:56 PM | 3 comentário(s)
domingo, janeiro 01, 2006
É isso aí, Feliz Ano Novo!
Tudo de bom proceis tudo!

Entro em férias, voltando dia 09, ou em algum plantão...

Grande beijo.

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postado por Aleksandra Pereira às 1:16 AM | 2 comentário(s)

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