terça-feira, fevereiro 21, 2006
VÁRIAS DESCOBERTAS E UMA FRAUDE
DESCOBERTAS

Recentemente um amigo antigo de colégio me encontrou através do Orkut, surgido de uma época prá mim tão remota que passei o resto do dia aclarando lembranças, avivadas pelas fotografias que guardei - já que não posso mais confiar só em minhas memórias.

De um modo estranho, não guardo amigos de infância, colégio, até de faculdade são poucos os que considero. Sempre que olho para trás, não vejo raízes. Os únicos que reconheço facilmente são aqueles que me acompanham até hoje: Machado, Flaubert, Calvino, Shakespeare, Woolf, Rosa, Wilde, Veríssimos, Sabino, Rey e outros tantos, sempre com um à mão.

Difícil era encontrar alguém que compartilhasse de minhas paixões, literárias ou musicais. Complicado para uma fase da vida onde todos querem se encontrar em grupos, turmas, pensamentos, ficando iguais, comuns. Você quer ser diferente, sabe que freqüentar bibliotecas não é perda, antes um prazer, e que também gostar de músicas mais velhas que seus pais não é nenhum problema.

E na juventude de quem facilmente já recebe vários apelidos, você ganha outros tantos, por não se adequar à maioria. Você não sabe se está triste por ser “diferente”, ou por sentir que, lá no fundo, alguns queriam ser como você.



Lembro que um ano após o término do colegial, já entrando na faculdade, eu era praticamente a única de toda essa turma que não havia casado ou assumido compromissos por uma inesperada gravidez.

Faculdade terminada, tempo passando, cobranças que aumentam: “e o casamento, quando sai?”. A continuidade da família, estabilidade. Me sentia, como li numa revista feminina, “o iogurte na porta da geladeira, com validade vencida recentemente”. Você pode tentar não medir o tempo, mas as pessoas sempre te lembrarão dele.

Mas afinal, não constituir família cedo foi bom ou ruim prá mim?



Queria respostas. Fui resgatar contatos que me indicassem onde estão hoje essas pessoas que fizeram parte de meu passo, saber o que fizeram com suas vidas:

alguns divorciados, com filhos. Outros casados e filhos, com subempregos. Poucos cursaram o 3º grau, e a maioria não trabalha com ou no quê gostaria. Pouco estudaram de lá para cá, e suas vidas basicamente se resumem às famílias, ou ao que restou delas.
São poucos, raros, os que posso olhar a vida e dizer “caramba, que bacana”, pelo sucesso profissional. Pessoal, todos reclamam.

Mas não sei quem trocaria a sua má experiência, pela minha falta de vivência. Eu que continuei a diferente do grupo, eu que não tinha assuntos em comum ao ouvir sobre maridos, bebês, dia-a-dia de um casal em crise, divórcios, recomeços. São coisas que em sua maioria só conjecturo, pois faz parte de meu trabalho como escritora criar e imaginar histórias para as mais diferentes vidas, mas de pessoas comuns, com carne, osso e sentimentos.


A FRAUDE

Foi quando percebi que escrevo sobre a vida desses meus amigos, o que é comum a eles, que viveram e vivem tudo isso. A vida real recriada na ficção é a deles, não a minha. Mesmos nos livros, a vivência me é emprestada. Eu só finjo que vivi.

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postado por Aleksandra Pereira às 12:44 AM |


5 Comentários:


At quarta-feira, fevereiro 22, 2006 12:55:00 PM, Anonymous Carlitos 

Você não é nenhuma fraude, minha querida, e tua caminhada ainda é longa, quando poderás falar com a propriedade que exige de si. O que não te desabilita em nada em tudo que li aqui até hoje. Você é muito boa, siga assim.

bj

At quarta-feira, fevereiro 22, 2006 4:13:00 PM, Anonymous Ivan 

JURO, JURO, JURO, JURO E JURO!!!!!!!!! Depois deste texto, minha vontade de falar com você aumentou imensuravelmente. Que texto maravilhoso. Que confissão! Mas, não chamaria de fraude. Chamaria de equívoco, que não comprometeu minha admiração por seus escritos, o que, seguramente é um traço de sua personalidade. E é por esse traço que encanta a mim e, acredito, àqueles a quem lê o seu blog ou se relaciona mais diretamente com você. Parabésn por esse texto. Gostei muito.

At quinta-feira, fevereiro 23, 2006 2:33:00 AM, Anonymous Anônimo 

Precisa mesmo de muita coragem para se expor assim, tão francamente humana, tão mortalmente artista, tão humilde pessoa...

Palavras que me encantaram. Caminhe.

At quinta-feira, fevereiro 23, 2006 8:02:00 AM, Anonymous Alexandre 

Texto brilhante...a gente lê muita coisa por aí, mas bom assim é raro!

At domingo, fevereiro 26, 2006 11:08:00 PM, Anonymous Marcus Pessoa 

Oi, Aleksandra, que belo texto! Vi o link, obrigado.

Olha, quase todos os meus amigos de verdade eu conheci, não no trabalho, ou na escola, ou na rua de casa, mas por aí, na noite, nas festas, nos bares, apresentados por outros amigos. Os meus colegas de universidade são quase estranhos pra mim hoje; com os meus colegas de trabalho eu talvez agüente uma, duas horas de um happy hour, depois me entedio mortalmente.

Quando a gente não tem nada em comum com outra pessoa, a não ser coisas que existem aqui dentro, as coisas se tornam mais reais. Não existem afinidades outras, além daquelas permanentes -- é claro, se estamos falando de pessoas adultas; eu acho que pouquíssimas amizades adolescentes sobrevivem.



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