quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Adélia Prado, "Com licença poética"
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

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postado por Aleksandra Pereira às 8:50 AM |


2 Comentários:


At domingo, fevereiro 12, 2006 4:03:00 PM, Anonymous Carlitos 

Também amo Adélia, de uma simplicidade profunda praticamente gritante.

At quarta-feira, março 08, 2006 7:11:00 AM, Blogger denise 

Oi, Alessandra. Tudo bem? Achei este poema bem apropriado e, coincidentemente, ele também está em meu post de hoje. somos desdobráveis mesmo. Parabéns!
beijo, menina



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