domingo, fevereiro 19, 2006
Cárceres
São Paulo, 30 de abril de 1987

As celas se fecham, é chegada a hora, o instante mais difícil: o de tentar dormir o sono dos justos, mesmo sendo todas nós, culpadas. Seu mundo fica mais distante de meu, filha minha, mas aqui sigo cumprindo meu destino por amar alguém demais.

Vivemos em prisões, estando atrás de grades ou não. Impedidos de expressar o que sentimos, dizer o que queremos. O próprio nascer mulher, libertador por sermos nós as geradoras da vida, é a maior de nossas prisões.

Por isso, filha minha, te desejo o que de melhor o futuro possa te oferecer, num pedido muito simples: não siga os meus passos. Rompa com seu passado, queime suas raízes, nasça de novo e, principalmente, não se doe por amor.

Seja forte o quanto puder. Entregue seu corpo, nunca seu coração. Amar foi sempre a perdição de nossa família, filha minha, infelizmente a única herança que te deixo.

Espero que nunca se perca. Continue nossa história por nós, submissas ou violentadas, loucas ou encarceradas.
Sobreviva a nós.

Com afeto,
Sua mãe.

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postado por Aleksandra Pereira às 4:48 PM |


1 Comentários:


At segunda-feira, fevereiro 20, 2006 2:17:00 PM, Anonymous Carlitos 

Forte, Alê. As vezes, podemos ser cruéis, nós homens. Fazer sofrer por amor, não querer esse futuro aos filhos, triste. Forte.

Beijo



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