quarta-feira, dezembro 19, 2007
Remédio
Algumas pessoas a gente ainda não conhece mas, por algum motivo, parecem íntimas, não é assim que acontece?

Bom, a pessoal que inspirou esse post não faz idéia de quem seja essa que vos escreve (ainda) mas fez e ainda faz uma diferença enorme, colossal, em minha vida. Desde que comecei os tratamentos para a depressão - antes deles, até - eu procurava alternativas para levantar o astral sem precisar me apoiar em medicações.

Escrevendo um conto - que acabou virando um roteiro - uma das personagens cresceu inspirada nesse homem. E terminei o roteiro com a seguinte observação: o quero como o senhor Morales de qualquer jeito!

Ele é cantor, ator, já com anos de estrada na bagagem. Divertido, charmoso, adorado por uns, odiado por outros, e muitos ainda o adoram às escondidas, assim como eu fazia.

Hoje, tentando apoiar uma grande amiga, receitei para ela esse potente antidepressivo. Não tem como ouvi-lo e não começar balançando a cabeça, batendo o pezinho, tentar acompanhar uma música. Ou cantar inteira, fala a verdade!

O remédio pode ser encontrado na seguinte embalagem:


Sem excessos não possui contra-indicação mas, se for se exceder,

me chama!

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postado por Aleksandra Pereira às 6:42 PM | 4 comentário(s)
quinta-feira, março 08, 2007
GUERRA & PAZ - Obsessão
Só a paz e o silêncio o fazem ordenar o caos de seus pensamentos. Maurício tranca-se em seu pequeno e improvisado estúdio, longe de Fabiana, Betina, Maura, as constantes e ruidosas mulheres de sua vida, e preenche seu tempo pintando tantas outras.

Crítico ferrenho de si mesmo, Maurício não exibe suas telas já prontas, empilhando-as no closet estreito. Não por temer ser criticado por seu talento artístico (ou falta dele) mas pela escolha de seus temas. Não só imagens de mulheres, não somente mulheres quaisquer. Uma só mulher. E dela, seu detalhe mais saboroso e carregado de significado para nosso pintor suspirante: a nuca.

A nuca de Leila.

A obsessão é antiga. Foi com Leila o primeiro beijo, ansiado, oferecido e roubado na última fileira dos bancos da missa dominical. O segundo levou 1 semana - suas mulheres desde sempre já eram manhosas, manipuladoras - e lhe custou suas 3 mais queridas figurinhas, que nas mãos da nova dona logo foram parar no lixo - puro capricho.

Um tempo depois Leila não mais lhe quis. Nas missas, procurava sentar-se duas fileiras à frente, rígida, concentrada. O cabelo preso num alto rabo de cavalo exibia a alva nuca, perfeita, a que perseguiria Maurício pela vida adentro.

Leila o ignorava tão firmemente naqueles encontros de domingo que Maurício chegou a pensar que aqueles beijos lhe custaram muito caro e que, por castigo, havia perdido Leila para Deus.

A perdera mesmo para Luís Márcio, o chefe de classe da 4ª série e que, além da garota, ficara também com suas estimadas figurinhas.

O tempo os afastou de vez. Novas cidades, novos romances. Maurício conheceu outras garotas, namorou - e muito, encontrou a nossa Fabiana. Mas, por mais que se esforçasse em sossegar, havia sempre uma nuca que o tirava do sério, o desviava do caminho, o fazia perder o ônibus, o metrô.

Atrás daquela nuca cruzou bairros, a procurou no carnaval de Salvador, na estada em São Tomé, nas visitas ao Playcenter com o sobrinho. Buscava conforto, um acordo com o passado - e um tantinho de revanche. Ao mesmo tempo que esperava encontrá-la como em seus devaneios, a versão carnuda e amadurecida da dona dos grandes olhos e longos cabelos, no fundo preparava-se para o pior: que ela estivesse carnuda, amadurecida e feliz.

Ele pensa em desistir, mas não consegue. É mais forte do que ele, ou pelo menos até Fabiana descobrir o que ele realmente faz por horas trancado naquele quartinho. Enquanto isso, Maurício continua a caça à sua alva Moby Dick envolta em lembranças, desejos e mistério.



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postado por Aleksandra Pereira às 3:10 PM | 7 comentário(s)
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
GUERRA & PAZ - Pela madrugada
- Amanhã eu penso em um, Fabi. Agora vamo dormir.
- Amanhã não, amor. Escolhe um agora...
- Não.

- Amor!!! Por favor, vaaai?!?
- Tá legal! (...) Ninon, pronto!

- Ninon, Maurício?
- É, por que não?
- Ninon parece nome de prostituta, amor, não serve como apelido carinhoso.

- Como não, Fabi? Imagina você na cozinha: está lá, preparando o jantar, aí eu chego bem juntinho do seu ouvido e digo: Ninoôon, meu benzinho!".
- Então aproveita e põe uma placa na entrada dizendo: cobro por hora mas te levo ao céu em seis minutos!

- Fabi, É carinhoso.
- Não
É um apelido íntimo, carinhoso, Maurício. Apelido íntimo e carinhoso é aquele que no meio de uma discussão na frente dos nossos amigos, você sabe que vai quebrar a minha guarda e perdoar o que quer que você tenha feito - e você sempre faz. Agora, Ninon? Ninon faz parecer "Gente, vambora que eles vão se pegar em cima da mesa mesmo!".
- E isso não é legal?

- (...) Não, isso não é legal, Maurício.
- E por que não?

- Affff! Porque eu tô dizendo, Maurício.

- Engraçado como essa resposta é flexível, ela serve prá tudo!

- Chega, Maurício. O escritor aqui é você, então não quero saber, eu só quero um apelido íntimo, carinhoso e
BOM, que nem o seu.
- Mas Fabi, eu sou
TICO desde que me conheço por gente e nem lembro quem me chamou assim primeiro.
- Mas é ótimo: TI-CO. Curto, carinhoso. Seu...
- Sua boba... E eu por acaso vou te amar menos se você não tiver um apelido?

- Eu sei que não, mas eu quero um prá gente.

- E o que tem de errado com Fabi?

- Mas todo mundo me chama assim. Fabiana eu só viro mesmo quando levo bronca.

- Que tal Ana?

- Ana? Ana por quê?

- Ué, é o restante de Fabi.

- Não, eu não quero apelido de sobra, ainda por cima que me deixa com cara de outra pessoa.

- Então?, a minha Ana, a que para os outros é Fabi.

- Nananinanão. Vai pensando aí, sozinho, sem pressão, mas só me volte aqui com um belo dum apelido.

- Fabi, são duas horas da manhã, eu tô com sono e preciso dormir.
- Então aproveita que o sofá da sala é novo e vai amaciando enquanto pensa em alguma coisa. Toma o lençol, o travesseirinho e BOA NOITE!

- Fabi. (...) ABRE A PORTA, Fabi.

- Primeiro diga a senha.

- Que senha, Fabi? FABIANA! Fabiana, ABRE A PORTA!

- Humm, a cama tá t
ããããão macia...
- Fabi!

- Eu tô tirando a camisolinha..
- FABIANA!?!!! (...) BIBI, BIBIANA, FABINHA, FAFÁ, BIANA, BINA, FABETE, FANINHA, BIBINHA, FABINHA, NANA, BIANINHA, BININHA...
- Calma aí, caramba! Repete aquele?
- Qual, Fabi?
??
- Aquele, eu gostei.

- Seja mais específica, Fabiana, eu tô trancado de cueca do lado de fora do
MEU quarto!
- E assim mais próximo do sofá da sala!

-
FAFA?? BIBI??? FABINHA? Não. (...) Droga. (...) Nana??
- Esse amor, adorei!!! (...) Entra.
- Aleluia!!! Tá feliz?
- Muito!

- Posso dormir agora?
- Claro que pode! (...) Amor?
- O que é,
NANA?
- Ai, que fofo! Não, era só isso.

- Agora dorme.

- Tá bom. Boa noite, vida.
- Tá, tá!

...

- Fabi?

- Oi?

- (...) Eu te amo. (...) Mas você é louca.

- Também te amo, vida. Agora, me deixa dormir que eu tô morrendo de sono...

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postado por Aleksandra Pereira às 5:01 PM | 10 comentário(s)
domingo, janeiro 28, 2007
GUERRA & PAZ - BARBARidades
Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.
(Oscar Wilde)


Betina sonhou não lembrar se tinha dezesseis ou trinta anos. Acordou com cinqüenta. Na verdade, quarenta e nove anos, onze meses e vinte e seis dias. O que fez em todos esses anos, o que conquistou? Foi feliz? Na correria louca de seu louco mundo, não tinha parado para refletir sobre os rumos de sua vida.

E o que era todo aquele questionamento? Tristeza ou falta de estrógeno?

Só se lembra que tudo aconteceu tão rápido...

Após um ano e meio de casamento, seu marido fora embora, deixando-a sozinha com a pequena Rafaela. Betina viveu o estigma de ser chamada “separada”, “mãe solteira” em uma época de profundas mudanças no país e dentro dela. Para sobreviverem, trabalhava fora em dois empregos, deixando a filha pequena aos cuidados de Maura, a babá e melhor amiga de todas as horas.

Bem, de quase todas.

- Alô? Maura?
- Tina? ‘Cê sabe que horas são?
- Meu relógio parou.
- Então troca de pilha, Tina, e me deixa dormir.
- Não é desse relógio que eu tô falando, criatura, é o da vida.
- Tina?!? Você morreu? Tá ligando do Além?
- É sério, Maura.
- ‘Cê tá bem, Tina?
- Além da pele seca, o excesso de peso, o coração que galopa, acordar empapada de suor, e uma montanha-russa emocional? Tô ó-ti-ma!
- Aham...
- Maura, acorda!!!
- Hã? Eu não tô dormindo. Escuta Tina, ‘cê tá ligando do Além a cobrar?
- Eu não sou fantasma, Maura.
- Não? Ah, então liga amanhã! Tchau.
- Maura? Alô? (...) Palhaça.


Betina vivia para filha, hoje seu mundo é a neta. Esqueceu o que era sair, curtir a vida, namorar, sempre ocupada com o trabalho, contas, médicos. O tempo simplesmente foi passando e lhe deixando para trás. Filha, esposa, mãe, avó. Betina via sua vida e todos os seus diferentes papéis em sua frente. Mas o que seria dela agora? O que fazer?

Sua atual vida a entristecia. Mesmo tendo saúde, um confortável apartamento, ou uma boa renda com sua loja de bolsas. O que Betina não compreendia era o que fazer com aquela estranha que a olhava no espelho todos os dias.

Deprimida às portas da quinta década, Betina custava a sair de casa ou do telefone, em longas conversas com a amiga Maura. Fabiana a encontrava sempre perdida sob as cobertas:

- Vó, sai já dessa cama, vem tomar um banho gostoso e comer alguma coisa quentinha.
- Não quero.
- Deixa de manha, Dona Betina. Parece criança. Vamos, tira logo a bunda desse colchão.
- Não fala assim comigo, sou sua avó e sua mãe.
- E se não levantar, baterei na bunda das duas.
- Não vou sair mais da cama, Fabi. Manda trazer minhas coisas do escritório, que agora trabalho daqui.
- Que é isso? Preguiça?
- Não. Crise... de meia-idade.
- Crise de meia-idade, vó? Qualé, isso é besteira. Além do mais, ‘cê não vê jornal, não? Se a média de vida das mulheres tá em uns 73 anos, sua meia-idade, matematicamente, foi lá entre os 36, 37 anos.
- Isso. Pisa.
- Seguinte, vó. Depois da escola, vou pro shopping e depois janto na casa da Carol.
- Não volta tarde.
- E você, nada de comida mexicana de novo. Chega de nachos, burritos e guacamoles. Sai e come algo leve, só pra variar.
- Tá bom.
- Mas é pra sair. Chama a madrinha pra ir junto.
- Tá bom, mãe. Tchau. Bom passeio, divirta-se, juízo e...
- Eu já sei, vó: juízo, cuidado, camisinha, blá, blá, blá...
- Isso mesmo, vai repetindo como mantra pelo caminho. Não vou aguentar ser bisavó agora.

...

- La Violetera, Buenas noches!
- Alô? Oi, é a Betina, aqui da Espírito Santo. Eu quero o combo com dois burritos, e nachos com guacamole, salsa e cheddar. Isso. Rápido.

...

Sentada sozinha na cozinha, após separar pratos e talheres, Betina espera. Contar o tempo havia virado sua principal ocupação.

...

A comida do restaurante nem era mais tão boa assim, desde a troca de cozinheira. Juanita abandonara o restaurante e o marido para viver com um confeiteiro francês no interior de Santa Catarina. Antonio Morais, o “Morales”, assumiu o estabelecimento e fazia ele mesmo algumas entregas, principalmente se conhecia os fregueses.

- Como está o nacho, Betina?
- Delícia, Morais. Muito gostoso.
- Experimenta com o vinho.
- Eu não pedi vinho.
- Não reclama e experimenta.
- Humm. Bom.
- Fica com a garrafa. (...) Melhor?
- Sem fome.
- Bom começo.
- Já não me bastava a lei da gravidade, Morais, meu mundo também caiu... Olha só prá mim. Sábado à noite e eu na cozinha, devorando comida mexicana com o entregador.
- Dono.
- Desculpa, não quis ofender. É que eu remôo demais as coisas, sabe? Penso, analiso, defino. E não tenho feito nada. (...) Tanto tempo que não faço o cabelo, ou compro roupas novas... Esse vestido eu usei no batizado da minha neta. (...) Tô só o pó, como ela diria. O pó. “Não encuca, vó”.
- E ela tá é certa. Não deve ficar esquentando com besteira. Tem muita coisa pra fazer ainda na vida, Betina.
- Você acha?
- Acho. É nova ainda, bonitona.
- É, eu ainda tô respirando, né?
- Como mulher gosta de reclamar, não? Ô, diacho! (...) A conversa tá boa, mas eu vô andando.
- Quanto eu devo?
- Deixa disso, já pagou com o papo.
- Morais, assim você vai falir.
- Mas quem disse que eu não me divirto?
- As agruras de uma mulher de meia-idade te fazem rir? Fora daqui agora! Tchau, e obrigada pela paciência.
- Nada. Outra coisa: não é ruim se ainda cabe no vestido do batizado. Sinal que ainda tá podendo...
- Podendo caber no vestido, pelo menos!
- Você é uma mulher muito bonita, Betina, tem que lembrar disso. Precisando de companhia, sabe onde achar.

- Tá. Quando quiser taco de novo, te aviso.
- Pode ser, também.

...
- Esse Morais tava me cantando ou sendo gentil? Acho que perdi o jeito.
...


Betina bebeu todo o resto do vinho direto da garrafa, e capotou no sofá. A bebida e o estômago pesado somaram-se em um pesadelo daqueles:

Ela tinha dezesseis anos, e ia com sua saia de pregas favorita encontrar-se com Maurício, o namorado secreto aos pais e que seria o grande amor de sua vida por mais 1 ano, 8 meses e 11 dias, até o momento em que ele lhe apresentou Darcy, estudante de Direito, 23 anos e capitão da equipe de Remo. Mas naquele dia Betina ainda nem imaginava Darcy, mas seria aquele o momento da concepção de Rafaela.

Betina passava em frente a uma construção com peões, serventes e pedreiros, imagem clássica de homens suados sob o escaldante sol do meio-dia.

Logo lhe alcança a chuva de assobios e frases redondas de ambigüidades e provocações, que coram as bochechas mas afagam o ego. Até ouvir a estranha frase “Poxa, se fosse mais nova eu até pegava!”.

Como assim, mais nova? Betina olhava para suas mãos, braços e pernas, tocava o rosto, os cabelos, e sentia fresco o viço da juventude.

“Mais nova? Credo, isso dá é cadeia, viu?”

Mas o reflexo dos vidros do prédio vizinho lhe traía: grisalha, abatida, a pele marcada e o corpo curvado pelo tempo. Levava a mão à boca e ela tremia pela exaustão com o breve esforço.

Vê-se definhando, encarquilhando, engolida pela vida que escoa. Ela se toca, e se observa de cima a baixo.

“Mas como? Minhas mãos, o meu corpo, eu ainda sou jovem, jovem!!!”, ela questiona, suplica, a visão turva pelas lágrimas. Nada lhe resta a fazer senão chorar.

O choro lhe lava a alma e o rosto se transforma em exultação ao ver-se refletida como é, dezesseis anos, radiante em sua saia pregueada.

Fora somente um delírio, excesso de calor e imaginação. Maurício a espera, precisa ir.
Mas não consegue sair do lugar, tem a estranha sensação de encolher. O ar lhe falta, as mãos envelhecidas, não mais obedecem.

Betina quer gritar, pedir ajuda, mas não tem forças. Está morrendo.

- Vó? VÓ?
- Ah? O quê? O que foi?
- Vó? Acorda, vó. ‘Cê tava tendo um baita pesadelo!
- Quantos anos eu tenho?
- Os mesmo de antes. Até o próximo aniversário.
- Graças a Deus!
- Eu, hein!? (...) Sonhou com o quê?
- Com meu passado, com meu futuro...
- E o presente, nada? Ai, vó, ‘cê pensa demais. Será que quando eu ficar velha, vou passar o resto da vida assim, só pensando?
- Se queria me ajudar, continua, você tá quase conseguindo...
- Vó, já foi. Passou. Você não pode encucar tanto com coisas que aconteceram lá no século 17, esquece isso, pô.
- Século 17?
- Maneira de falar, vó.
- Não podia ser o finzinho do 19?
- Não vai levantar, né?
- Só mais dois minutinhos...
- Deixa pra lá. Tchau, Dona Betina.


Aquela não era maneira de viver. Ainda era jovem, bonita, poderia voltar a estudar se quisesse, agora que as coisas estavam tranqüilas. Sairia para comprar roupas novas, acessórios. Faria o cabelo. Pegaria Maura e viajariam juntas pelo interior do país, rindo como loucas, conhecendo pessoas interessantes, homens interessantes. Estava viva. Viva, como estavam Fabiana e a amiguinha na sala de estar, preparando-se para uma festa. Precisava se lembrar de como fazer isso: viver.

- Dona Betina, a senhora tá uma gatona!
- Gatona?
- É, bonita, poderosa.
- Vai sair, vó?
- Não. Passei a tarde na loja, cansei. Vou ficar por aqui mesmo. Divirtam-se vocês.
- E você vai fazer o quê?
- Não sei. (...) Acho que vou pedir comida mexicana.

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Ufa! Leu até o fim? Beleza. Se gostou, aguarde.
Betina, Maura, Fabiana e companhia ainda aprontarão muito por aqui.

ilustração: Gil Elvgren

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postado por Aleksandra Pereira às 1:59 PM | 14 comentário(s)
sexta-feira, novembro 03, 2006
GUERRA & PAZ - SEM EXPLICAÇÃO

- FABIANA!?

- Oi, amor.
- Já está pronta?

- Só um pouquinho, amor, não achei o sapato que combina com a saia longa vermelha.

- Vermelha? Fabiana, tem meia hora que eu olhei e era azul, Fabi, azul. Um VESTIDO.

- Me deixou gorda.

- Gorda onde, Fabiana?

- Do dedinho do pé aos pensamentos.

- Ai, meu Deus! Fabi, A ÓPERA. Não irão nos esperar para começar. Fabi...

- Não sei. Acho que vou com o vestido mesmo.
- FABIANA!



Quando conheci a Fabiana, tive certeza de que não era mulher pra mim: descolada, bem-humorada, sexy. Nunca me olharia. Mas olhou. Sorriu do meu jeito sem graça, da falta de tato; ouviu trechos dos meus três primeiros romances ainda não publicados, da minha peça nunca encenada, da minha vida pouco vivida. Achei que não tornaria a vê-la, mas na semana seguinte estava lá, no lugar que combinamos. Saia jeans, blusinha, elástico nos cabelos presos. Batom marcante e perfume suave, cheirando a promessas.


Fabiana entrou em minha vida feito um furacão. Mal se instalou em casa foi mudando as coisas ao seu gosto, reorganizando meus CDs, escondendo as pilhas de gibis. Me sentia “a visita”, perdido. Tirou a cama do lugar por causa do “feng-shui”, comprou um grill para diminuir a gordura, transformou o quarto de despejos em sapateira (todos com salto. É mesmo impressionante o que uma mulher pode agüentar só por vaidade!). Um saco.

Tá bom. A casa ficou aconchegante, eu admito. Só não parece a minha.

O sexo é formidável, mas as discussões são homéricas: “abaixe a tampa do vaso”, “tire a toalha molhada da cama”, “não bebe na garrafa”. Só que é o MEU vaso, MINHA cama, MINHA garrafa. Meus.

O único reino somente meu é o do papel com minhas tentativas de contos, roteiros, peças. Vez por outra uma personagem morena, gostosa e mandona tenta se infiltrar nas histórias, mas eu a exorcizo, sua morena gostosa e mandona.

A Fabiana pode ser mandona, briguenta, mas é uma gracinha. Se derrete de chorar com comercial de margarina, não tem medo de barata e sim de borboleta, além de memória de elefante para coisas bobas. Mas tem uma enorme capacidade de prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo, sempre prova a minha comida antes, põe ordem no meu caos.

Ela me escuta, traduzindo minha língua enrolada. E fica linda só com a camiseta do meu time e uma calcinha de algodão. Pena que leve tanto tempo pra se arrumar.

Se bem que esse põe e tira roupa por não ter o que vestir é um dos meus shows eróticos preferidos...

- Mauríciô?... Me ajuda a fechar o vestido? Tô quase pronta. Isso. Não, amor, é pra fechar...
- Vamos ficar por aqui mesmo.
- Poxa. Por eu me atrasar SÓ UM POUQUINHO?

- Não. É que o programinha caseiro ficou muito mais interessante...

- Bobo!

ilustração: "A Couple"_Fernando Botero



Quer saber quando essa história começou por aqui?
Leia Guerra & Paz_Mentiras sinceras me interessam

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postado por Aleksandra Pereira às 12:56 PM | 4 comentário(s)
segunda-feira, agosto 14, 2006
GUERRA & PAZ - Mentiras sinceras me interessam

- Maurício! Ô Maurício, pára de assobiar e responde logo: pagou ou não a conta da TV a cabo?
- Conta?
- A que te pedi pra acertar anteontem, na volta da academia.
- Ah... Não.
- Então pague amanhã, senão vão cortar.
- Não vai dar não.
- E por que não? Maurício, o que você fez com o dinheiro?
- Nada. Comprei um gibi. Um só.
- E o troco?
- Sem troco. Pô, amore, era uma raridade, edição de aniversário, prá colecionador. Saiu até barato!
- Ai, que eu vou ter um troço!
- Calma, Fabiana, prá quê tanta frescura por causa de...
- Frescura?


Aaaaaaaaahhhhhhhh!

Vai dizer que seu marido nunca aprontou uma dessas?

Cuidar do marido às vezes é como cuidar de um filho, preparando sua comida, correndo atrás para catar as tralhas espalhadas pela casa... Alguém por favor, me explique: prá quê tanto gibi de heróis multicoloridos e mocinhas com colant apertado?

E de nada adianta eu tentar reclamar: Maurício sempre aumenta o rádio e assobia toda vez que tento pedir alguma coisa, mesmo a mais simples (imagina se fosse para discutir a relação!). Não agüento mais ter de brigar por bobeiras como baixar a tampa do vaso sanitário, tirar a toalha molhada do chão ou não beber direto da garrafa. E ainda tenho que entender que ele, quando quer refletir, precisa fazer isso com a porta da geladeira aberta!

Sinceramente, mulher que se desdobra nessa jornada dupla de lavar, passar, arrumar e ainda ter que engolir sapo de chefe deveria ganhar o Nobel da Paz. Da Paz, não, da Paciência.

Cuidar de casa + marido + emprego não é nada fácil, ainda mais hoje onde a principal exigência para a mulher moderna é a de ser multitarefa: cuidar dos afazeres domésticos, trabalhar fora, bajular a sogra, fazer compras, almoço, jantar, cabeleileiro quando sobra tempo, além de estar sempre fresca e perfumada. A mulher-esposa-amante-empregada 24 horas em ação.

Mas afinal, e para os homens, o que é ser multitarefa? Assistir ao futebol com uma mão segurando a cerveja e a outra minha coxa? Ter que decidir qual deixar livre para pegar o controle remoto para zapear na TV a cobertura dos melhores momentos da partida?

Onde foram parar a cordialidade, a atenção e gentileza dos primeiros tempos de casamento? E o romantismo?

Desde quando ficou chato ser romântico?

E olha que eu nem sou uma mulher tão exigente assim, eu só queria um homem que me amasse, mesmo com todos os meus defeitos, TODOS eles - incluindo o cabelo matinal desgrenhado, o pneuzinho aconchegante na cintura, e a vontade de almoçar pizza de vez em quando e, se possível, que fosse a cara do Colin Firth.

Mas o Maurício não se parece com o Colin Firth. Talvez de longe, no escuro, visto por esta mulher míope e... apaixonada. O Maurício sempre esquece nossas datas importantes, flerta com minhas amigas, espalha copos sujos pela casa... Mas esfrega meus pés quando reclamo frio, encaixa o corpo no meu prá me ninar quando tenho pesadelo (o último foi com uma visita surpresa da mamãe. A dele). E quando diz “eu te amo”? Faz parecer mentira todas as vezes que ouvi essa frase de outros homens. É raro ouvir dele, mas quando acontece, ele sempre me ganha. Me sinto única, desejada, feliz e...

- Fabí...

... caindo das nuvens.

- O que é, Maurício?
- Cê viu minha camiseta cinza, aquela que uso sempre?
- No cesto de roupa suja.
- Poxa, amore, eu tenho jogo hoje com os caras, e você nem lavou?
- Avisei que a vez de lavar roupa era sua.
- Não, eu lavei da última vez.
- Sua “última vez” foi mês passado, Maurício.
- Ah, Fabizinha, dá uma lavadinha nela enquanto eu tomo banho...
- Não dá.
- Por favor...
- Não.
- Tá.... tá certo, amorzinho. Não quero interromper sua leitura, você deve estar cansada, trabalhando tanto...
- Trabalho mesmo.
- Vai dar uma voltinha com suas amigas, se distrair.
- Eu vou.
- Você merece. Uma mulher e tanto. E é minha. Dá beijo. Te amo.
- Falso. Não vou cair nessa sua conversa mole não. Vai lá tomar seu banho.

Sem vergonha. Sabe dizer as palavras certas e do jeitinho certo, não posso negar. Cachorro. Não é o Colin Firth, mas é o homem que eu amo. Fazer o quê?

Só tomara que essa camisa seque logo.


- Ô, Fabizinha, minha paixão, você lavou e secou a camiseta, minha rainha? Minha gostosa, dá beijinho, obrigado!
- Não foi nada, querido...
- E ainda passou... Peraí, ô Fabiana, não acredito! Cê marcou a minha camiseta predileta com o ferro, quase que fez um rombo! Volta aqui! Volta aqui, Fabi! Por que que você tá assobiando? Fabiana, volta aqui, que agora eu quero discutir a relação! Fabiana!

ilustração de
Michael Sowa

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postado por Aleksandra Pereira às 2:05 PM | 5 comentário(s)

LÁGRIMAS LAVADAS© 2006, por Aleksandra Pereira. All rights reserved.