quinta-feira, dezembro 15, 2005
Sabe do que mais me arrependo? De não ter beijado um garoto.
Não foi amor que ficou, e sim um carinho, a sensação de ter vivido o mais terno momento da minha vida.

Era um garoto com quem fazia um curso de “Excelência no Atendimento”. Fábio. Fábio Alves. Lembro que ele queria ser Juiz do Supremo. Mostraria o que realmente era fazer justiça.

Me interessei logo de início, e o que mais me chamou atenção nele foi o pescoço.

Pois é. Engraçado como às vezes nos sentimos atraídos por partes do corpo, partes de um todo. Eu sentava no fundo da sala, ele na frente; Fábio usava o cabelo preto bem curtinho, então do meu ângulo seu pescoço era a região mais visível.

Flertávamos um pouco, nada escancarado. Quando contou que era comprometido, esfriei.

No último dia de curso, o professor pediu que cada um compusesse seu currículo. A maioria ali ainda batalhava o primeiro emprego, todos se ajudavam, as aulas eram sempre descontraídas.

Me preparava também para a minha formatura do colegial naquela semana, e precisava ir ao Clube Atlético acertas detalhes da festa. Fábio se ofereceu para ir comigo. Conhecia o lugar, sua namorada era sócia.

Eu pensei: “Tudo bem. Ele só está sendo gentil”, e deixei que me acompanhasse.

Estávamos conversando, até que ele pegou um dos meus cadernos, e começou a folhear, procurando assunto. Fiz a mesma coisa com o dele, entrando na brincadeira. Abria e fechava o caderno. Não queria mesmo ler, sabe. Invadir a intimidade. Só que reconheci algo na última página que despertou meu interesse: o telefone da minha casa. Um número que não havia lhe dado. Fiquei contente, achei o gesto bonito, e já que ele tinha o meu, poderia então me dar o dele. E deu.

Estávamos lá, nos cobiçando, até que uma amiga me chamou para entrar. Hora da despedida. Não queria, ele também não. Ficamos um bom tempo enlaçados, olhos nos olhos, conversando, querendo escutar um pouco mais a voz do outro. Até que as palavras acabaram.


Até hoje não sei se ele ficou me esperando, se fiquei aguardando que ele tomasse a iniciativa. Só sei que ninguém fez nada, até a hora em que ele se despediu e foi mesmo embora.

Já mudei muito depois daquele dia. De endereço, feitio, amizades. Nunca mais o vi.

Não sei se algo ficou marcado nele, sobre aquele dia. Com certeza em mim ficou, por ter sido um dos momentos mais tristes e mais bonitos da minha vida.

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postado por Aleksandra Pereira às 2:48 PM |


3 Comentários:


At sexta-feira, dezembro 16, 2005 10:10:00 AM, Anonymous Joana Lima 

Ai, Aleksandra, muito triste mesmo, mas muito bonito. Tentaste achar o rapaz, mais tarde?

At domingo, dezembro 18, 2005 11:41:00 AM, Anonymous Regina da Glória Gomes 

Tenho uma história parecida: conheci um amigo de um namorado, que me encantou de cara! O pior, sempre aparecia oportunidades de ficarmos sozinhos, conversarmos. Ele tentou me dar um beijo, não deixei, fiquei com medo. Tempos depois, ele foi embora para a Austrália.
Acho que meu medo não foi do meu namorado, de aparecer alguém. Foi o medo mais besta do mundo, o de ter conhecido a pessoa ideal pra mim, minha alma gêmea, e não saber o que fazaer com ela, como zelar pela relação, entende? Fiquei com medo de não ser mulher suficiente. Estou ainda com o mesmo namorado, mas soube que ele casou e vive numa praia, como fotógrafo. O amor da minha vida.

At domingo, dezembro 18, 2005 9:14:00 PM, Anonymous Anônimo 

Ai, como será que seria um encontro fortuito, totalmente ao acaso, esbarrãos em um esquina?



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