quarta-feira, dezembro 27, 2006
AMIGO SECRETO
Final de ano, festas. As pessoas ficam mais contentes, abertas, solidárias. Uma efusão de “Bom dia!”, “por favor”, “obrigada”. Nos escritórios, listas com pedidos são montadas e é declarada aberta a temporada do “Amigo Secreto”, ou “Amigo oculto”, como preferir.

Só o nome já incomodava Érica. Não gostava de saber ter algo, alguém, secretamente oculto - parecia um tanto proibido. E se expor em uma lista, sendo obrigada a dizer o que deseja ou o que quer ganhar, chamava demais a atenção para si, coisa que nunca gostava.

Érica nunca sabia o que pedir, era sempre a última a informar seu gosto, para azar dos que a sorteavam. Acabava escolhendo coisas simples, miudezas. Mas na hora de presentear era bem diferente: se o amigo pedisse um CD de um cantor, recebia uma coleção completa. Uma bolsa? Não sem a sandália combinando. A pequena se desdobrava pesquisando a vida de seu amigo especial, seus gostos e preferências.

Reservada e discreta, Érica não guardava amigos, cultivava uma colcha de retalhos: o sorriso de um, o gosto para vinhos de outro, o orgulho de uma mãe por seu filho. Pedaços de outras vidas para formar a companhia ideal. Não que Érica fosse muito exigente. Só queria alguém fiel, carinhoso, que fizesse tudo para lhe agradar e não pedisse muito em troca. Podia ser um amigo, um amor. Ou um cachorro.

Respirou fundo, entregou pra Deus, e resolveu entrar no clima da brincadeira. Não custaria muito se divertir um pouco, para variar. Sorteou Jorge, um dos dois estagiários do departamento financeiro. Alto, magro, falante e canhoto, era tudo o que Érica sabia. Foi olhar o pedido do amigo: em branco.

“Mas que pessoa é essa que demora tanto prá escolher o quer? Que indecisão!”

Passou a avaliar o estagiário: qual tipo de caneta preferia, as músicas que cantarolava, para qual tipo de mulher olhava. Sim, porque através delas poderia adivinhar alguma coisa. Mas Jorge não lhe dava pistas, e ela não conseguia descobrir nada útil.

Érica se aproximou de Merival, o outro estagiário. Não era amigo de Jorge, mas poderia lhe ajudar. Ela não queria dar bandeira e entregar quem era seu amigo oculto, e inventou uma história onde Janete, a secretária da diretoria, estava interessada no rapaz. Envergonhada, Janete pedira a Érica que lhe ajudasse na empreitada.

Merival concordou prontamente em ajudar. Um rapaz falante, pequeno, precocemente careca e, o que Érica descobriu depois, de gosto literário duvidoso: escolhera o livro “Revelando - para quem não descobriu – o Código da Vinci”.

- Você leu o original, o da polêmica?
- Não. Achei que, como esse promete explicar tudo, fosse mais fácil entender toda a confusão.
- Ah.

“Isso que dá tentar puxar assunto.”

Merival apurou, e descobriu que Jorge balançava entre o CD duplo especial do Chico Buarque e o livro “Machado de Assis - um gênio brasileiro”, biografia do bruxo do Cosme Velho escrita por Daniel Piza.

“Que gosto, que refinamento!”

Érica passou a olhar Jorge com outros olhos. E tanto olhou, que ele a percebeu, e passaram a se cumprimentar com mais freqüência. Jorge, sempre que a via, sorria. Já Érica, interessada, passou a gastar mais tempo decidindo qual roupa usar no trabalho. As pessoas reparavam, comentavam, e Érica exultava.

E como sabia das preferências de Jorge, não pensou duas vezes: comprou o CD do Chico E a biografia do Machado. Fez um embrulho caprichado, e esperou.

Passaram-se os dias, chegando enfim o do evento tão aguardado.

17 horas. Embrulhos nas sacolas, ao lado das mesas, todos alvoroçados, ansiosos.

Expediente acabando, a 1 hora mais comprida da vida de Érica. Imaginava o instante em que seria chamada, receberia seu presente (“Meu Deus, o que foi que eu pedi mesmo?”). Tentaria manter a calma e diria alguma coisa engraçada para descrever Jorge, que faria cara de assustado, levantaria e iria ao seu encontro. Um abraço, talvez um beijo. Dois. Todos olhando, alguns se dando conta que eles faziam um casal tão bonito...

Merival passou com um aceno e um sorriso, mas Érica nem viu. Viu sim, mas estava prestando atenção no fundo do andar, a sala do refeitório.

“Mas, e se Jorge me pegou? Seria o desfecho perfeito, a deixa para um convite até sua casa, ouvir o Chico, quem sabe lermos juntos alguns trechos da biografia...”.

Hora da festinha.

Alguns colegas beberam escondidos e se encontravam um tanto altos, esquentando a reunião. Zulmira, dos Recursos Humanos, pede silêncio e o primeiro voluntário, o amigo ou amiga que abrisse a rodada. Ninguém se prontifica, só trocam olhares e risinhos abafados. Érica ferve, não cabendo em si de ansiedade e, num pulo, levanta e se anuncia. No mesmo momento o arrependimento bateu, mas era tarde. Respirou fundo, firmou as pernas, e começou.

Recordando esse dia, Érica não faz idéia do que e por quanto tempo falou. Jorge levantou, tomou o presente, lhe deu um aperto de mão e partiu para enunciar seu sorteado. A desilusão de Érica foi tamanha, que se sentiu encolhendo e sumindo de frustração. Sentou no seu canto, amargurando aguardar sua vez antes de desaparecer.

Ainda teve que ver Jorge colado ao pescoço de Janete. Merival comentou o que Érica lhe contara, e Jorge resolveu investir na secretária. Com sucesso, para desespero de Érica, que inventara a história toda.

Os amigos foram aclarados, um a um. Chegara para a Érica a hora de descobrir quem ficara com a enfadonha tarefa de presenteá-la. Um envergonhado Merival se anuncia, tendo que ir até a cadeira de Érica lhe entregar os presentes, já que ela, com medo de cair ao levantar, continuou sentada.

Merival chamou algumas pessoas que aguardavam em outra sala, estranhas figuras em roupas antigas. Como Érica esquecera de informar o que queria ganhar, e Merival sabia que ela havia ficado feliz com as escolhas de Jorge, resolvera contratar um grupo de seresteiros e dedicar-lhe uma música. Do Chico, com açúcar, com afeto.

Érica então reparou que Merival não era assim, tão baixinho, tinha um brilho vivo nos olhos, e a careca lhe conferia um charme peculiar.

Depois daquele ano, Érica largou o emprego no escritório. Queria se dedicar em ser a dona-de-casa perfeita, a mãe devotada, ela que um dia sonhava apenas em ter alguém ao seu lado, e ganhou um amigo, um amor, e até um cachorro. Só precisava melhorar em Merival seu estranho gosto literário.

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postado por Aleksandra Pereira às 3:25 PM |


6 Comentários:


At quarta-feira, dezembro 27, 2006 3:43:00 PM, Anonymous Paty 

Alê.Seu talento é algo nato. Felicidades minha menina! E que em 2007 vc realize seus sonhos profissionais.beijos

At quinta-feira, dezembro 28, 2006 9:31:00 AM, Blogger Aleksandra Pereira 

Paty,
minha linda, te agradeço sempre, sempre, pelas palavras ternas e pela força, que 2007 também venha recheado de realizações para você!


Beijo grande.

At quinta-feira, dezembro 28, 2006 9:35:00 AM, Blogger Aleksandra Pereira 

Vivien,
deprimiu pelo o quê, minha querida? Foi por escolher falar sobre o "Código Da Vinci"?

Mas repare que não falei dele diretamente, mas inventei um nome para uma das "franquias" que surgiram sobre o livro. Não li o "Código", dele não posso falar em termos de material, importância, registro.

Só acho muito estranho quando um livro precisa de outro para ser entendido, para lhe decifrar os códigos.

O único livro que aceito para explicar outro é o dicionário.


Beijo.

At quinta-feira, dezembro 28, 2006 10:11:00 AM, Blogger Ana 

Ah, os caminhos do amor...
Tão perto, às vezes, e não prestamos atenção...

At quinta-feira, dezembro 28, 2006 2:21:00 PM, Blogger Vivien 

A "opção" dela me deprimiu!!!...rs beijos, o texto está ótimo.



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