quinta-feira, novembro 30, 2006
“QUEM É?”
Sua mulher sempre reclamava, naquelas horas de briga esquentada, que ele era feio e mal-encarado. Mesmo na escola - ele se esforçava para lembrar do tempo que ainda estudava, quieto, quando sempre levava a culpa por qualquer coisa -, tinha cara de quem aprontaria, ainda que não quisesse.

Atravessou a rua correndo, apertando o pedaço de papel bastante amassado na mão calejada: Rua das Oliveiras, 59, apartamento 6. Sabia que o cara morava sozinho. A ordem era para entrar e moer ele de pancada, sem dó.

Chegou. Do outro lado da calçada, o prédio, a guarita de porteiro e o próprio, parado no portão de entrada.

Lembra-se: é só prá assustar. O safado deve uma grana violenta pro seu patrão violento. E ele precisa impressionar. Já não bastava o vacilo da última vez, mais uma daquelas e terá que se ver com o cara, frente a frente. Ou adiantar aquele papo com São Pedro.

Uma mulher se aproxima do prédio puxando um pesado carrinho de feira. O funcionário se adianta para ajudá-la. Ele aproveita o instante, atravessa a rua e entra no prédio, esquivo.

Gostaria de fazer outra coisa na vida. Ser jardineiro. Gostava de plantas, as achava bonitas, coloridas. Mas sua mulher acha vaperda de tempo dar tanta atenção pra um vazinho de flor, quando colocaram quatro filhos no mundo. E o trabalho quem lhe arrumou foi o tio Maneco, estimado na comunidade, não podia dar pra trás.

Com o papel ainda na mão, ele pára em frente à porta de número 6, sem olho mágico. Se ajeita, respira fundo, bate duas vezes. De lá de dentro, voz de homem:

- Quem é?

Ele não responde.

- Quem é?

E ele nada. A porta é aberta, e ele entra, invadindo.

- Ei, que porcaria é essa? (...) Não, por favor, não, eu não fiz nada!

No corredor, o som dos socos, e o silêncio.

A porta abre e ele sai, alisando as mãos, vermelhas.
A do elevador abre, e de dentro sai a mulher com o carrinho cheio de compras. Ela se assusta com ele, que lhe segura a porta. Ela sorri agradecida e sai, procurando e tirando as chaves do bolso. Ele desce pelas escadas.

A mulher pára na porta número 6. Pensa em como o seu marido é devagar e inútil dentro de casa. O que de tão importante tem de fazer que ainda não consertou nem o número da porta? Ela inverte o 6 transformando-o em um 9, põe a chave na fechadura, tira, gira a maçaneta e entra, fechando a porta. O número 9 se torna 6 novamente.

Da entrada do prédio, ele ainda consegue ouvir o grito agudo e desesperado de uma mulher, sabe-se lá por qual motivo. Não interessa. Missão cumprida. O chefe ficará feliz.

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postado por Aleksandra Pereira às 11:05 AM |


12 Comentários:


At quinta-feira, novembro 30, 2006 7:11:00 PM, Blogger Rosa Vermelha 

menina a paty me falou que vc escreve bem.Vim conferi e adorei.Parabéns!

At quinta-feira, novembro 30, 2006 7:31:00 PM, Blogger Aleksandra Pereira 

Oi, Sandra. Agradeço a você e a Paty, pela querida divulgação, e pelo carinho.

Beijo grande

At quinta-feira, novembro 30, 2006 7:32:00 PM, Anonymous Carlitos 

Lelê,

tá sabendo do evento para o "VIdas Secas" em Sampa?

Vais?

Beso

At sexta-feira, dezembro 01, 2006 8:11:00 AM, Anonymous Alexandre 

Que melhor combinação existe que chuva e café quente??? hehehe...

At sexta-feira, dezembro 01, 2006 11:46:00 AM, Blogger paty 

Alê, esse é mais um conto maravilhoso feito por você minha menina.Muito agradável de se ler, me faz lembrar aquelas revistas de conto-novelas, que as pessoas absorviam cada frase. E café e chuva...não há nada melhor,rsss
estou te esperando para saborearmos um lá no caracol, ou preferes um outro local?Beijos

At sexta-feira, dezembro 01, 2006 10:16:00 PM, Blogger TARCIO VIU ASSIM 

Oi Aleksandra, sempre estou vindo aqui, mas hoje resolvi deixar um recado, agradecendo pelo link e parabenizando pelo conto. Taí uma autora cruel com seus personagens, brincando com os desencontros do acaso e com o sarcasmo (será essa a palavra ideal?) da vida.
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Abraço do admirador sertanejo.
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Posso te recomendar um blog? Vê Raimundo Pajeú. ;-)

At sábado, dezembro 02, 2006 1:59:00 AM, Anonymous Leonardo 

Pois é, mas ele acabou "dando prá trás"... (ouch!) coitado do tio maneco...

At sábado, dezembro 02, 2006 12:41:00 PM, Blogger Aleksandra Pereira 

Paty,
querida,
ontem me lembrei de que local tu falas. Não tem problema nenhum não, deixa a poeira dessa bagunça toda assentar, que a gente marca!

Beijo grande.

At sábado, dezembro 02, 2006 12:45:00 PM, Blogger Aleksandra Pereira 

Eh, Tarcio,
adorei a recomendação do Pajeú, já deixei nos meus favoritos para ohar com calma e carinho.

É a primeira vez que me chamam de autora cruel (hehe). Eu gosto bastante das minhas personagens, mas gosto mais ainda desses desencontros de suas vidas. Às vezes brigava comigo mesma com o fim de uma história, mas ela pede para terminar de determinada forma, senão não explica para que veio, não tem a sua graça.

Cruel, cruel...

beijo

At sábado, dezembro 02, 2006 3:41:00 PM, Blogger Aleksandra Pereira 

Tarcio, seu Raimundo é bom, sim, até parece contigo...

beijo



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