sexta-feira, outubro 06, 2006
AI, ADELAIDE!
- Adelaide, passa a pipoca. A pipoca, Adelaide!

- Psiu! Quieta!

- Mas eu tô com fome!

- Dá logo essa pipoca prá menina, Adelaide.

- Peraí. Ai, como ele é lindo...

Adelaide, nossa heroína, é uma jovem decidida, curiosa e romântica. Do alto de seus incompletos 16 anos, seu maior sonho é sair de sua cidadezinha e viver uma vida de estrela de cinema, ao lado, é claro, de um ator incrivelmente famoso. Um desejo nada incomum na cabecinha fértil de uma jovem sonhadora.

Seu refúgio são as salas do Cine Marechal. Nelas, seu pensamento voa e ela se imagina vivendo todas as aventuras, curtindo todos os momentos românticos e de grande paixão, contracenando com astros e estrelas tão conhecidos e familiares, num mundo onde todos falam inglês, é claro, inclusive ela. Sua admiração pelo mundo do cinema é tão grande, que muitas vezes Adelaide confunde realidade e fantasia.

Suas melhores amigas são Neide e Cidinha, que dividem com Adelaide o gosto pela sétima arte, mas muito mais realistas e interessadas nos moçoilos da cidade mesmo.

- Ai, que tédio!

- Adelaide, pára de reclamar da vida, mulher.

- É, Adelaide. A vida aqui é tão boa, tranqüila...

- Esse é o problema: não acontece nada nessa porcaria de cidade! Ai, como eu queria que um grande astro viesse me buscar aqui, me tirar desse fim de mundo!

- Adelaide, Alegria não é uma cidade tão ruim assim de se viver.

- Alegria? Essa cidade é uma tristeza de dar dó!

- Ai, Adelaide!

Além disso, Cidinha e Neide partilham entre elas o gosto pela mais marcante paixão nacional: a televisão. Acesso às novelas, notícias, programas humorísticos, logo ali, na sala de suas casas, sem se preocupar em que roupa vestir para agradar os brotinhos. Só mesmo Adelaide ainda não se interessara pela “caixa mágica”, sempre pensando em seu grande amor da semana, ou da última sessão de cinema.

Adelaide é uma moça bonita mas de temperamento forte, como Catarina, de “A Megera Domada”. Ela quer escolher seu amor, não ser escolhida. Alguns já tentaram, mas ela não cede. Entremeando realidade e fantasia, ela vai levando sua vida até que um dia um grande astro a leve dali. Sua persistência em seu desejo é tão intensa, que Adelaide humilha o pobre do aprendiz de padeiro Pereirinha, filho do senhor Pereira. O triste rapaz a segue por todos os lugares, suplicando um olhar, um gesto, uma palavrinha, e nada. Ao seu lado, Adelaide imagina uma vida inteira atrás do balcão, com seus filhos se tornando padeiros, seus netos...

Adelaide preocupa a mãe, Dona Nair. Mal come, vive suspirando pelos cantos. Toda semana, um nome de homem diferente: Guilhermo Alejandro, Felipe Anselmo, Mateus Ventura, Lourenço Aguiar... e sempre apaixonada por todos. Mal come. Diz que se alimenta com o seu amor...

- Menina, amor só enche barriga quando a moça engravida. O que você andou aprontando, Adelaide?

- Ai, Dona Nair!

Sua mãe faz o que pode para conter as loucuras da filha. Vive ajoelhada em frente ao seu altar para Santa Rita de Cássia, com seu terço na mão, pedindo paz e juízo para a filha desvairada:

- Ai, minha Santa Rita de Cássia, ajude a Adelaide! Faça com que ela crie juízo, que esqueça de uma vez por todas essa história de cinema e arrume logo um bom namorado para fazer um bom casamento. Tô vendo que ela vai ficar é solteirona e pra titia, que Silene tá é cuidando da vida dela.

Adelaide, em seu quarto, também reza para sua Santa Rita, mas não aquela mesma de sua mãe:

- Ai, minha Santa Rita, minha Santa Ritinha. Minha Santa Rita Hayworth, faça com que meu príncipe encantado de Hollywood venha logo me buscar, para o meu casamento dos sonhos. Não quero ficar solteirona! Ah, e me faça ficar poderosa como a senhora em “Gilda”, por favor. Amém.

Adelaide possui excepcional talento para copiar os figurinos de suas musas inspiradoras. Vira noites debruçada sobre a máquina, cosendo, procurando o que fazer naquele lugar, o que acaba lhe dando uma boa idéia: já que possui energia e tempo de sobra, além de ser boa em copiar vestidos, por que não costurar para fora? Como diria sua mãe, “distrai a cachola de besteira, e também vai te dar um dinheirinho”.

E assim Adelaide seguiu levando sua vidinha. Foi com orgulho que viu seu trabalho ser requisitado por todas as senhoras de Alegria, tornando seu mínimo espaço de produção no “Ateliê Adelaide – costuras de classe”. Costurava dia e noite e ainda com três ajudantes, pois sozinha não dava mais conta. Mal via Neide e Cidinha, que namoraram, desmancharam, namoraram, até noivarem e se casar, deixando a cidade muito antes de Adelaide, que já se aproximava dos 30. Neide se tornou professora na capital e vizinha de Cidinha, que perseguiu seu sonho e se tornou garota-propaganda na televisão. Vendia de tudo, mas o que mais gostava era de anunciar produtos alimentícios.

A mais nova e, por incrível que pareça, duradoura paixão de Adelaide era Leandro Villar, astro do cinema paulista, protagonista de fitas badaladas como “Sem fronteiras para amar” ou “Colinas da Paixão”, um tipão. Sua mais recente produção, “Amor do interior” procurava um local ainda bucólico para as filmagens, e anunciaram justamente gravar em Alegria alguns trechos. Como Adelaide amava sua cidade!

A praça principal estava escura de tanta gente, fios e equipamentos. Adelaide tenta daqui, se estica dali, e consegue ver o que acredita ser o pescoço de Leandro Villar, o mais perto que já chegara de um astro de cinema. Esperará atentamente que acabem para correr e lhe falar qualquer coisa, se não estiver emocionada para tanto.

Mas aquele dia passava devagar. Horas e horas onde cenas se estendiam, sem Adelaide entender. Quantas vezes repetiam o mesmo trecho, arrastando a câmera, e de novo, e mais uma vez. Nunca havia imaginado que ver uma produção assim, de perto, seria tão... chato. Cansou. Precisava ir ao banheiro.

Adelaide sai correndo por entre a multidão, quando tropeça em um dos muitos fios, ou pés, não se recorda. Só sabe que tropeçou, caiu e bateu a cabeça, o que comprova a fina cicatriz que ficou depois. Acordou com o céu escuro sobre si, de pessoas amontoadas, curiosas. Entre elas, segurando sua mão, Leandro Villar. Só podia estar vendo coisas.

- Me deixem passar, é minha filhinha, Adelaide! - gritava Dona Nair.

- Eu estou bem, estou até vendo estrelas – respondeu uma atordoada Adelaide.

- Calma, minha pequena. Você sofreu um pequeno acidente, mas está bem. Eu a levarei para casa, daremos uma pausa – disse Leandro Villar, voz suave, com todo o charme que ela via na sala escura do cinema.

- Isso, mãe, ele me levará daqui, eu falei...

- Moço, vamos logo, ela tá delirando!

- Se eu estiver delirando, por favor, não me acordem!

Adelaide voltou para casa nos braços de Leandro Villar, super astro, seu astro, o grande amor de uma vida. No caminho já se imagina entrando na mansão deles, recém-casados, os três filhos lindos e bem cuidados, as festas que iriam, a vida que levaria...

Leandro Villar limpa com cuidado o machucado em sua testa, ali, tão perto dela.... Aqueles olhos! Sempre lhe denotavam algo familiar, mas assim, tão próximo, a suspeita crescia, urgia, gritava:

- Perei... Pereirinha?

- Eu.

- Você é Leandro Villar?

- Leandro Villar sou eu, sim.

- Mas por quê?

- A garota por quem eu fui apaixonado era louca por astros de cinema. Um dia, um amigo de um amigo precisava de um figurante para uma produção, eu me ofereci, fui muito bem, e aqui estou.

- Por que Leandro Villar?

- Antonio Afonso Ramos Pereira não é nome de ator famoso, não acha?


Leandro Villar, Pereirinha, pega as mãos de Adelaide.

ADELAIDE
E a garota?

PEREIRINHA
(irônico) O que tem ela?

ADELAIDE
(num muxoxo) Não é mais apaixonado por ela?

PEREIRINHA
Não.

ADELAIDE
Ah, que pena.

Adelaide vira o rosto para esconder as lágrimas. Pereirinha pega seu queixo e a faz olhar para ele.

PEREIRINHA
Hoje ela é uma linda mulher, e eu a amo.

ADELAIDE
Oh, Pereirinha!

Pereirinha e Adelaide beijam-se apaixonadamente.

PEREIRINHA
Ai, Adelaide!

CORTA PARA:

INTERIOR – IGREJA - DIA

Adelaide e Pereirinha no altar, igreja cheia, com Cidinha e Neide como Madrinhas e Dona Nair chorando copiosamente.

ADELAIDE (falando para a câmera) Eu não disse que ainda me casaria com um astro de cinema?

NEIDE E CIDINHA (suspirando)
Ai, Adelaide!

FIM

FADE OUT

DIRETOR (OFF)
Corta! A cena ficou ótima, podemos ir para casa, pessoal!

CRÉDITOS FINAIS

Marcadores:

 
postado por Aleksandra Pereira às 7:05 PM |


5 Comentários:


At sábado, outubro 07, 2006 2:41:00 PM, Anonymous Carlitos 

Minha querida,
amei.

Parabéns, os textos estão saborosos,
como sempre!

Besos

At domingo, outubro 08, 2006 12:56:00 AM, Blogger Felipe 

Oi Aleksandra!
Aproveitei a deixa pra conhecer teus blogs. Surpresa boa tive aqui. Adorei a história da Adelaide. Você também gosta de finais felizes? Eu gosto e tento fazer como você fez aqui, buscar um final legal sem cair na mesmice. Se o poder de contar uma história é do autor, da minha parte vou sempre dar um jeito de arranjar uma saída bacana pra quem está ali, como personagem, batalhando numa boa por uma vida menos ordinária.
Quero poder ler mais coisas que escreves. Voltarei mais vezes por aqui.
Beijão

At segunda-feira, outubro 09, 2006 10:09:00 PM, Blogger Sandman of the Endless 

Olá, Aleksandra!

Você não imagina como fiquei feliz por ter recebido uma mensagem sua, numa visita ao meu modesto blog. E fiquei mais ruborizado ainda ao ver que você o adicionou à sua lista!!! Valeu, garota... Sempre que posso lhe faço uma visitinha, afinal de contas você escreve muito bem mesmo!!!

Mas me deixe tomar a liberdade para dizer que não foi por acaso que me rotulei "insensível" no blog... Resolvi iniciá-lo como um forma de descarregar toda a pressão que se abatia sobre mim no curso do desgastante processo que culminou na minha separação. Estava quase pirando naquela ocasião... E ele, o blog, tem sido uma boa "terapia"... Me ajuda a externar tudo (ou quase tudo...) aquilo que me sufoca.

Em dada oportunidade, minha "ex" me rotulou como sendo "a pessoa mais insensível que ela conhecia"... Estávamos em casa, numa rodada de conversações com um amigo, o Rubens, e ele logo retrucou que ela estava totalmente enganada, pois na pior das hipóteses ele me tinha como "o mais insensível dos sensíveis", a pessoa mais sensível que ele conhecia, tanto a ponto de parecer "insensível"... E largou a citar os poetas e os livros que eu gostava de ler, todo o tipo de situação em que eu me indignava com o mundo, e por aí foi... Não sei o por quê, mas aquele momento me marcou muito, mas muito mesmo... No meu íntimo, fiquei deveras feliz ao saber que alguém não achava que eu possuía um coração de pedra. Mas ela não pensava assim, e até agora não acho que haja mudado muito de idéia a meu respeito. Pontos de vista, né?

Na realidade, penso que ela nunca soube me ver por dentro, o que se escondia por trás do meu verdadeiro EU. Eis aí uma das razões pra gente não ter dado certo...

Há cerca de dois meses estamos separados. Tenho buscado superar toda as mágoas, desgastes, desacertos do passado, mas não é nada fácil. Há dias em que eu estou bastante depressivo; outros nem tanto. Não consegui ainda (re)organizar a minha cabeça, a minha vida, os meus sentimentos... Mas espero chegar lá.

Tenho buscado recuperar minha auto-estima, inclusive satisfazendo todos os meus gostos... Voltei a comprar livros, de literatura (que eu amo), e também técnicos, pois preciso voltar a estudar. Os filmes são decorrência de outra praixão que eu alimento, o cinema. Procuro sempre focar em roteiros, diretores e atores que me tocam. Fazendo um balanço de tudo isso, acho que tenho me saído bem, não?

Um beijo grande...

At quarta-feira, outubro 11, 2006 6:14:00 PM, Anonymous Anônimo 

adorei, parabéns, moça.
Torci pela felicidade da Adelaide, e esse final de cinema ficou bacana.



LÁGRIMAS LAVADAS© 2006, por Aleksandra Pereira. All rights reserved.